Olho por olho , e o mundo ficará cego .











Mahatma Gandhi








Saber


Vi _Ver .



Wednesday, December 29, 2010

Violetas


*
Imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que , de sol em sol ,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

Dizes ... põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto ,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
Sim , cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

Diz-me que há ainda versos por escrever ,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.



Vasco Gato
Colin Fraser

Monday, December 27, 2010

Alfazema




As primeiras palavras que ouvi
na minha vida
foram
_ onde vais
?
_
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e minha mãe .

Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar .


Tonino Guerra_ Poemario A.& A _

Tuesday, December 21, 2010

Sunday, December 19, 2010

Violetas



Nasceu
Foi numa cama de folhelho
entre lençois de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.

E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo.
Que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas
postas até ao fundo do seu corpo.

Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar Salvador do Mundo
!



Alvaro Feijó

Saturday, December 11, 2010

Alfazema


*
Já a luz se apagou do chão do mundo ,
deixei de ser mortal a noite inteira .
ofensa grave a minha , que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.

De máscara perfeita , e corpo ausente ,
a todos enganei , e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.

Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede , vê na água
o reflexo da mão que a oferece ,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.


*
Antonio Franco Alexandre _ Duende _

Saturday, December 04, 2010

Violetas



A
Felicidade sentava - se todos os dias no peitoril da janela .

Tinha feições de menino inconsolável .
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém ,

gostando apenas de demorar as mãos
ou
de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E como menino que era ,
achava um grande mistério o seu próprio nome .




Jorge de Sena _ Obras Completas _

Saturday, November 27, 2010

Alfazema




Já desertou de mim o anjo preto ,e a minh´ alma cinzenta ,
ficou branca .
Que bom que era que desertasse também o anjo branco
p ´ra que minh´alma ficasse apenas
transparente ...



*
Cristovam Pavia

Tuesday, November 23, 2010

Violetas



Uma palavra antiga
mais nada .
Eh amiga ,
camarada !

Eh , onde quer que o sonho
leve o teu corpo tenso , teu sabor campesino ,
agridoce , de azedas e medronho ,
tua voz - aurora , sol , vitorioso sino.

Motivo de cantiga ,
anónima e amada
eh amiga ,
camarada !




Daniel Filipe _ Pátria lugar de exilio _

Saturday, November 20, 2010

Alfazema



Não te faças anunciar
Limita - te a chegar .

Pousa o casaco com os bolsos cheios
dessa tua vida mundana ,
na cadeira vazia
/
Descalça - te .
Não quero que os lugares onde estiveste
partilhem os passos que te trazem até mim
/
Hoje fico em silêncio ,
porque essas palavras já não me pertencem
E a ti também não.
Acabaram - se os porquês .

Amanhã não me acordes .
limita - te a sair pela ultima vez .


Ruth Ministro _ A minha Nuvem _

Saturday, November 13, 2010

Violetas



Obrigado
por todos os sonhos impossíveis ,
e pelas notas de amor que o violino não vibra
!
Obrigado por esta solidão que me esfarpa e me liberta !
Mas sobretudo obrigado pela lágrima que veio ,
inesperada , sorrir nos meus olhos
!


Cristovam Pavia

Wednesday, November 03, 2010

Alfazema


Povo que lavas no rio ,
Que vais às feiras e à tenda ,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão ,
Pode haver quem te defenda ,
Quem turve o teu ar sadio ,
Quem compre o teu chão sagrado

Mas a tua vida , não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia ...
Mas a tua vida , não
!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo , de mão em mão...
Água pura , fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida , não
!

Procissões de praia e monte ,
Areais , píncaros , passos
Atrás dos quais os meus vão
!
Que é dos cântaros da fonte ?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida , não
!

Aromas de urze e de lama!

Dormi com eles na cama ...
Tive a mesma condição .
Bruxas e lobas , estrelas
!

Tive o dom de conhecê-las ...
Mas a tua vida , não
!


Subi às frias montanhas ,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão .
Rasguei certo corpo ao meio ...
Vi certa curva em teu seio ...
Mas a tua vida , não
!

Só tu! Só tu és verdade!

Quando o remorso me invade
E me leva à confissão ...
Povo
!
Povo! eu te pertenço .
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida , não!



Pedro Homem de Mello_ Miserere _

Tuesday, November 02, 2010

Violetas .
















Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro ,
não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
se carácter custa caro ,
pago o preço.

Sidónio Muralha

Thursday, October 28, 2010

alfazema


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer
!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer
!


Mas , meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz
!

Amo-te tanto !
E nunca te beijei ...
E nesse beijo , Amor , que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz
!


Florbela Espanca

Saturday, October 23, 2010

Violetas .



Uma
sombra encostava a pata
ao vidro da janela .
Asim protegidos , adormeciamos .

Luisa Neto Jorge _ Poemario Assirio e Alvim _

Thursday, October 21, 2010

Alfazema .


*
No
regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
*
*Al Berto

Saturday, October 16, 2010

Violetas .





















*
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra ,
e

pescar luz caída
com paciência.


Pablo Neruda

Saturday, October 09, 2010

Alfazemas .


*
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores ,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente ,
uns vêem pedras pisadas ,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moínhos
D.Quixote vê gigantes.

Vê moínhos
?
São moínhos.
Vê gigantes
?
São gigantes


António Gedeão
.

Saturday, October 02, 2010

Violetas


É fácil trocar as palavras ,
Difícil é interpretar os silêncios
!

É fácil caminhar lado a lado ,
Difícil é saber como se encontrar
!

É fácil beijar o rosto ,
Difícil é chegar ao coração
!

É fácil apertar as mãos ,
Difícil é reter o calor
!

É fácil sentir o amor ,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa
?

Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa .
As dos outros são olhares ,
São gestos, são palavras ,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

*
Fernando Pessoa

Friday, September 24, 2010

Alfazema .






















Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro ,
a menor vogal
pode me desamparar !
E se eu abrir a boca ,
minha alma vai rachar.
O silêncio ,
aprendo ,
pode construir.
É um modo ...
denso ... tenso ,
de coexistir.
Calar , às vezes ,
é fina forma ,
de amar .


Affonso Romano de Sant'Anna

Wednesday, September 22, 2010

Violetas


*
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de sabero que só então se sabe
e não se pode contar.
*
*
Natália Correia

Thursday, September 16, 2010

Alfazema .



Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos , onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas , fica.
O mistério está é na tua vida
!

E é um sonho louco este nosso mundo...

Mario Quintana _ Baú de Espantos _

Friday, September 10, 2010

Violetas



O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo ,
Nem sequer de tudo ou de nada ...
Cansaço assim mesmo , ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis ,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas ,
Essas e o que faz falta nelas eternamente .

Tudo isso faz um cansaço ,
Este cansaço ,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito ,
Há sem dúvida quem deseje o impossível ,
Há sem dúvida quem não queira nada .
Três tipos de idealistas , e eu nenhum deles ...

Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível ,
Porque eu quero tudo , ou um pouco mais , se puder ser ,
Ou até se não puder ser...

E o resultado
?

Para eles a vida vivida ou sonhada ,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo , íssimo ,
Cansaço...


Fernando Pessoa _ Alvaro de Campos _

Saturday, September 04, 2010

Alfazema .


*
Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume ...
o teu perfume ,
lenha
da melancolia.


Carlos Oliveira

Sunday, August 29, 2010

Violetas .



Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
/
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
/
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou .
Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
/
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
/
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
/
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?



Fernando Pessoa _ Alberto Caeiro _

Tuesday, August 24, 2010

Alfazema .



De repente ,
do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente ,
da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente,
não mais que de repente .
Fez-se de triste o que se fez amante .
E de sozinho o que se fez contente .
Fez-se do amigo próximo o distante .
Fez-se da vida uma aventura errante .
De repente,
não mais que de repente
!


Vinicius de Morais


Ver video aqui

Wednesday, August 18, 2010

Violetas .



Sonho , mas não parece.
nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
a minha vida.
Íntima , funda , como um sentimento
de que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado ,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos , depois ,
Frutos do sonho e dessa mesma vida ,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa .
Então , já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia ...
É ela prisioneira ,
Que , vendo a porta da prisão aberta ,
Como chispa que salta da fogueira ,
Numa agressiva fúria se liberta .





Miguel Torga

Tuesday, August 10, 2010

Alfazema .



*
Até o jada se parte ,
até o ouro se dobra ,
até a plumagem de quetzal se despedaça ...
Não se vive para sempre na terra !

Duramos apenas um instante !

*
Poema Azteca _ Rosa do Mundo , 2001 poemas para o futuro _

Saturday, July 31, 2010

Violetas


/
És um passaro , digo
És um pássaro

com penas
cintilantes
dos teus olhos

As tuas asas
de pétalas

tecidas com a luz
das penas
das asas que te crescem

Poisar um pouco
nos parapeitos
da memória

antes de recomeçar
o voo
de regresso a casa

Com as nossas asas
lúcidas ...
translúcidas e pálidas

Deixa-me voar
por cima do teu
colo

até ir poisar
na tua alma .

*
*
Maria Teresa Horta

Friday, July 23, 2010

Alfazema .


*
Não tem cor nem forma , que não sejam
as nossas próprias quando humanos somos.
Nela os homens crescem,
não apenas sendo crianças , mas homens acordando
em corações já seus , sabendo que outros homens há
em outros corações só por tão pouco
acordando também .
É uma maneira , um jeito ,um doce olhar /
uma conquista como o ter falado , o fogo ,
ou a ternura .
/
Tudo na vida é negação sem ela ,
é surdez ou cegueira , é sono é morte.
Inexorável , fluida , humilde , altiva ,
como as ervas teimosas.
/
Tudo na vida que , sem ela , é medo ,
é como aragem nos cabelos solta ,
se por ela se vive , pensa e morre .
Tema - a quem teme a luz do sol ,
o brilho dos astros pela treva ,
a mão amiga , a ressaca do mar ,
o ardor da chama,
o sulco de uma roda no caminho ,
o restolhar do vento nos pinhais ,
a luz distante , os passos no silêncio ,
a conversa ao crepúsculo , as flores
abrindo , os animais andando , e tudo
o que humano se torna ao nosso olhar ,
e tudo que é como essas pedras gastas
há séculos e séculos , por mãos humanas .
gratas , respeitosas , puras .


Perante a paz , tudo tem nome antigo ,
e o medo dos que a temem é o primeiro ,
o medo imenso de pensar e ser .



Jorge de Sena _ A arte de Jorge de Sena _

Saturday, July 17, 2010

Violetas .



Depois de amanhã, sim , só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível ...
mas hoje não...
Não, hoje nada ...
hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva ,
O sono da minha vida real , intercalado ,
O cansaço antecipado e infinito ,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico ...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me ,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte ...
Ele é que é decisivo .
Tenho já o plano traçado ...
mas não , hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo ...
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar ,
Tenho vontade de chorar muito de repente , de dentro...
Não, não queiram saber mais nada , é segredo , não digo.
Só depois de amanhã ...
Quando era criança o circo de Domingo divertia-se toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de Domingo de toda a semana da minha infância ...
Depois de amanhã serei outro ,
A minha vida triunfar-se-á ,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente , lido e prático
Serão convocadas por um edital ...
Mas por um edital de amanhã ...
Hoje quero dormir ,
redigirei amanhã...
Por hoje , qual é o espetáculo que me repetiria a infância
?

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã ,
Que depois de amanhã é o que está bem o espetáculo...
Antes , não ...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanha serei finalmente o que hoje não posso nunca
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras , ou depois de amanhã ...
Sim, talvez só depois de amanhã ...
O porvir ...
Sim , o porvir..


Fernando Pessoa

Tuesday, July 13, 2010

Alfazema .


*
Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas
!


Eugenio de Andrade

Saturday, July 10, 2010

Violetas .


*
Ó meu menino da rua
Só , com uma chave na mão ...
Quem é que brinca contigo ?
Quem é que pede perdão ?
*
*
Matilde Rosa Araujo

Friday, July 09, 2010

Violetas .





Espáduas brancas palpitantes ...
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea.
Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco.
Esponja embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro ,
presa na teia dos seus ardis.

E aos pés um coração de louça ,
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia

Friday, July 02, 2010

Alfazema .





Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão .
No prato, a sopa esfria , cheia de escamas
e debruçadas na mesa todos completam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra ,
uma letra somente
para acabar teu nome
!

Está sonhando ? Olhe que a sopa esfria !
Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo ...

_" Neste país é proibido sonhar." _

Carlos Drummond de Andrade

Tuesday, June 29, 2010

Violetas .




Há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza
!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
a mais sentimental
e baça
bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
e ninguém me deseje apaixonado ,
Ou que a antiga paixão
me mantenha calado
O coração
num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.


Miguel Torga _ Poesia Completa _

Thursday, June 24, 2010

Alfazema .



Não sou daqueles cujos ossos se guardam ,
nem sequer dos que vindouros lamentam
não hajam sido guardados a tempo de ser ossos .

Igualmente não sou dos que são estandartes
em lutas de sangue ou de palavras ,
por uns odiado quanto me amem outros .

Não sou sequer dos que são voz de encanto ,
ciciando na penumbra ao jovem solitário ,
a beleza vaga que em seus sonhos ouver .

Nem serei ao menos consolação dos tristes ,
dos humilhados , dos que fervem raivas
de uma vida inteira a pouco e pouco traída .

Não , não serei nada do que fica ou serve ,
e morrerei , quando morrer , comigo .

Só muito a medo , a horas mortas , me lerá ,
de todos e de si se disfarçando ,
curioso , aquele que aceita suspeitar
quanto mesmo a poesia ainda é disfarce da vida .


Jorge de Sena _ A arte de Jorge de Sena _

Saturday, June 19, 2010

Violetas .





Põe na mesa a toalha adamascada,
Traz as rosas mais frescas do jardim,
Deita o vinho no copo, corta o pão,
Com a faca de prata e de marfim.

Alguém se veio sentar à tua mesa,
Alguém a quem não vês, mas que pressentes.
Cruza as mãos no regaço, não perguntes ...
Nas perguntas que fazes é que mentes.

Prova depois o vinho, come o pão,
Rasga a palma da mão no caule agudo,
Leva as rosas à fronte, cobre os olhos,
Cumpriste o ritual e sabes tudo.


José Saramago _ Poemas possíveis _

Sunday, June 13, 2010

Alfazema .




Saíra Santo António do convento ,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar , num tom rezado e lento ,
Um cândido sermão sobre o pecado .
Andando , andando sempre , repetia
O divino sermão piedoso e brando ,
E nem notou que a tarde esmorecia ,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando , andando, viu-se num outeiro ,
Com árvores e casas espalhadas ,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas , das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe ,
E fraco por haver andado tanto ,
Sentou-se a descansar o bom do monge ,
Com a resignação de quem é santo…
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade ,
O Menino Jesus baixou do céu ,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto , uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante .
O luar, mais alto , iluminava mais.

De braço dado , para a fonte , vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha ,
Ele trazia … o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse ,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino , porém , ouviu e disse ...
_ Ó Frei António , o que foi aquilo
?


O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada ,
Mentiu numa voz doce como o mel ...
_ Não sei o que fosse . Eu cá não ouvi nada …

Uma risada límpida , sonora ,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
_ Ouviste , Frei António
? Ouviste agora ?

_ Ouvi , Senhor, ouvi . É um passarinho.

_ Tu não estás com a cabeça boa …
Um passarinho a cantar assim
!

E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado , mas por fim ,

Corado , como as vestes dos cardeais ,
Achou esta saída redentora ...
_ Se o Menino Jesus pergunta mais ,
Queixo-me à sua mãe , Nossa Senhora
!


Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento ,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou ...
Jesus ,
são horas …
e abalaram pró convento.
*
*
*
Augusto Gil

Wednesday, June 09, 2010

Violetas



Num jardim adornado de verdura,
Que esmaltavam por cima várias flores ,
Entrou um dia a deusa dos amores ,
Com a deusa da caça e da espessura.
Diana tomou logo ũa rosa pura ,
Vénus um roxo lírio , dos melhores .

Mas excediam muito às outras flores
As violas na graça e formosura.

Perguntam a cupido , que ali estava ,
Qual de aquelas três flores tomaria
Por mais suave e pura , e mais formosa.

Sorrindo-se o menino lhes tornava
Todas formosas são , mas eu queria
Viola antes que lírio , nem que rosa.



Luis Vaz de Camões

Saturday, June 05, 2010

Alfazema .



/
A montanha abraça a pedra ,
o rio abraça o peixe ,
a nuvem abraça o arco - iris
e a lua abraça todas as estrelas .

O abraço vem de muito longe no tempo .

A linguagem dos abraços não contém quaisquer palavras .
E
o que desejamos ...

que o nosso abraço seja
eterno e infinito .


*
*
Michal Snunit
excerto do livro " infantil " _ Vem e Abraça -me _

Thursday, June 03, 2010

Violetas .





Conta - me um conto ... ...
Como O queres
?

... um ...

que não tenhas contado a ninguèm !

Friday, May 28, 2010

Alfazema .


*
Se fosses luz serias a mais bela
de quantas há no mundo ... _ a luz do dia
!

Bendito seja o teu sorriso
que desata a inspiração
Da minha fantasia
!
Se fosses flor , serias o perfume
concentrado e divino que perturba
o sentir de quem nasce para amar
!

Se desejo o teu corpo é porque tenho
dentro de mim
a sede e a vibração de te beijar
!

Se fosses água , música da terra ,
serias água pura e sempre calma
!

Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero , meu amor, que sejas alma
!
*
*
António Botto _ Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro _

Saturday, May 22, 2010

Violetas .



Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu .

Os outros de mim
fingindo desconhecer a imagem ,
deixaram - me , a sós , perpelexo ,
com o meu súbito reflexo .

A idade é isto . . .

o peso da luz
com que nos vemos .
*
Mia Couto _ idades , cidades , divindades _

Thursday, May 13, 2010

Alfazema .



Feita toda de gesso
só os pés de ouro .
Como pô - la erecta
se te derrete nas mãos ,
os olhos de vidro prestes a rolarem ?
Deixa - a ficar de joelhos
e esquece - a .
Não quero ver - te levantar de novo
para segurá - la .


Hristós Valavanídis _ Rosa do Mundo 2001 poemas para o futuro _

Saturday, May 08, 2010

Violetas .



Aqui, na Terra, a fome continua .
A miséria , o luto , e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza ,
E também da pobreza , e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas ...
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta , é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome .
E são brinquedos as bombas de napalme.

José Saramago
_ Poemas possíveis _

Saturday, May 01, 2010

Alfazema .



A rectidão da água , o crescimento
das avenidas , ao anoitecer , sob a nua
vibração dos faróis .

o laço, mesmo, das portas só
entreabertas, onde a luz
silenciosa se demora;

são memórias, decerto, de um anterior
esquecimento, uma inocente
fadiga das coisas ,

como os corpos calados, abandonados
na véspera da guerra, o teu
jeito para

o desalinho branco das palavras,
altas as
asas de nuvens no clarão do céu

em vão rigor abrindo
o destinado enigma ... assim
desconhecer-te cada dia mais

ausente de recados e colheitas ,
em assustado bosque, em sombra
clareira ,

ao risco dos rios frívolos descendo
seixos polidos , desinscritos ,
imóveis movendo

a luz do dia ,
a margem recortada , aonde vivem
ausentes e seguros , os luminosos

animais do inverno .
Assim são na verdade os muros claros ,
assim respira o tempo , a terra intensa.


António Franco Alexandre

Saturday, April 24, 2010

Violetas .



Eu gosto das aldeias socegadas,
Com seu aspecto calmo e pastoril,
Erguidas nas collinas azuladas
Mais frescas que as manhãs finas d'Abril.

Levanta a alma ás cousas visionarias
A doce paz das suas eminencias,
E apraz-nos, pelas ruas solitarias,
Ver crescer as inuteis florescencias.

Pelas tardes das eiras , como eu gosto
Sentir a sua vida activa e sã
!
Vel-as na luz dolente do sol posto ,
E nas suaves tintas da manhã
!


As creanças do campo , ao amoroso
Calor do dia , folgam seminuas ,
E exala-se um sabor mysterioso
D'a agreste solidão das suas ruas
!


Alegram as paysagens as creanças,
Mais cheias de murmurios do que um ninho,
E elevam-nos ás cousas simples, mansas,
Ao fundo, as brancas velas d'um moinho.

Pelas noutes d'estio ouvem-se os rallos
Zunirem suas notas sibilantes,
E mistura-se o uivar dos cães distantes
Com o canto metallico dos gallos...

António Gomes Leal

Friday, April 16, 2010

Alfazema .



Sim ,
quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda ,
sim , ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início ,
sim , a algumas palavras que são nuvens brancas

e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico ,
sim , aos instrumentos simples da cozinha ,
sim , à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência ,
sim , à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da pesença,
sim , à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim , à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim , à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim , às folhas que oscilam e brilham ao subtil sopro de uma brisa ,
sim , ao espaço da casa ,

à sua música
entre o sono e a lucidez , que apazigua,
sim , aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa ,
sim , à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra ,
sim , a ti , tempestade que iluminas
um país de ausência ,
sim , a ti , quase monótona , quase nula
mas que és como o vento insubornável ,
sim , a ti , que és nada e atravessas tudo
e

és o sangue secreto do poema.


António Ramos Rosa

Thursday, April 08, 2010

Violetas .



Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor
!

E para as tuas chagas o unguento
Como que sarei a minha própria dor.

Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho ... o astro que dormita ,
O manto dos crepúsculos da tarde ,
O sol que é de oiro , a onda que palpita.

Dou-te , comigo , o mundo que Deus fez
!

Eu sou Aquela de quem tens saudade ,
A princesa do conto ... _ Era uma vez _ ...


Florbela Espanca

Monday, April 05, 2010

Alfazema .



Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar .
Balouço à beira dum poço ,
Bem difícil de montar...
E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar .

Se a corda se parte um dia
( E já vai estando esgarçada ) ,
Era uma vez a folia ...
Morre a criança afogada
!

Cá por mim não mudo a corda ,
Seria grande estopada .
Se o indez morre , deixá-lo .
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca ... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive ...

Mudar a corda era fácil .
Tal ideia nunca tive ...
Mário de Sá-Carneiro

Tuesday, March 30, 2010

Saturday, March 27, 2010

Violetas .



O essencial é saber ver ,
saber ver , sem estar a pensar ,
Saber ver quando se vê ,
E
nem pensar quando se vê,

Nem ver quando se pensa .



Alberto Caeiro .

Saturday, March 20, 2010

Alfazema .



Florescia
A pionia
De anos em anos , apenas .
Se a Primavera
Era
Fria ,
Mal se erguia
O caule das açucenas.
Rastejavam as verbenas ...
Mas uma flor sempre havia
Que era a que mais rescendia ...
Lembras - te , ao meio - dia ,
Postas , tuas mãos morenas ... ?

Às quais sagro esta elegia .


José Régio

Sunday, March 14, 2010

Violetas .


*
Nos dias tristes não se fala de aves
liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

nos dias tristes é inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento
e diz-se bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração ,
e não fala connosco.


Filipa Leal

Saturday, March 06, 2010

Alfazema .



Uma casa que fosse um areal deserto ,
que nem casa fosse.
Só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria , e aqueceu
as mãos.
E partiu porque tinha
um destino, coisa simples
e pouca, mas destino.
Crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abrilou , quem sabe
?

a floração dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.
Eugénio de Andrade .

Saturday, February 27, 2010

Violetas .



Desejo, como quem sente fome ou sede,
um caminho de areia margeado de boninas,
onde só cabem a bicicleta e seu dono.

Desejo, como uma funda saudade
de homem ficado órfão pequenino,
um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos
para um forte carinho em minha nuca.
Brotam os matinhos depois da chuva,
brotam os desejos do corpo.
Na alma, o querer de um mundo tão pequeno,
como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga.

Adélia Prado .

Saturday, February 20, 2010

Alfazema .


Partido ,
é uma parte ,
,

inteiro !


Agostinho da Silva .

Saturday, February 13, 2010

Violetas .



Quando fui ferida,
por Deus, pelo Diabo, ou por mim mesma ,
_ ainda não sei _
percebi que não morrera , após três dias ,
ao rever pardais e moitinhas de trevo .

Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores ,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir ,
a festejar seu dono
_ ele , um bicho que não é gente -
tanto mais eu que posso perguntar _
Por que razão me bates?
Por isso , apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.


Adélia Prado .

Saturday, February 06, 2010

Alfazema .




Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
e vais à cave içar o teu malão.
Mas como destrinçar os nossos bens ?
Que livro? Que lembranças? Que papel ?
Os meus olhos, bem vês , és tu que os tens.
Não te devolvo - é minha! - a tua pele.
Achei ali um sonho muito velho,
não sei se o queres levar , já está no fio.
E o teu casaco roto , aquele vermelho
que eu costumo vestir quando está frio ?

E a planta que eu comprei e tu regavas ?
E o sol que dá no quarto de manhã ?
É meu o teu cachorro que eu tratava ?
É teu o meu canteiro de hortelã ?

A qual de nós pertence este destino ?
Este beijo era meu? Ou já não era ?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas ?


De quem é esta briga ? _ Não me lembro _ .


Rosa Lobato Faria

Saturday, January 30, 2010

Violetas .



/
Tempo ao tempo.
Mais depressa se apanha um assassino que um morto, porque, como dizia o outro, o morto voa a cavalo na alma e o assassino tropeça no medo.

José Cardoso Pires _ Balada da Praia dos Cães [ pequeno excerto ] _