Olho por olho , e o mundo ficará cego .











Mahatma Gandhi








Saber


Vi _Ver .



Wednesday, December 29, 2010

Violetas


*
Imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que , de sol em sol ,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

Dizes ... põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto ,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
Sim , cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

Diz-me que há ainda versos por escrever ,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.



Vasco Gato
Colin Fraser

Monday, December 27, 2010

Alfazema




As primeiras palavras que ouvi
na minha vida
foram
_ onde vais
?
_
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e minha mãe .

Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar .


Tonino Guerra_ Poemario A.& A _

Tuesday, December 21, 2010

Sunday, December 19, 2010

Violetas



Nasceu
Foi numa cama de folhelho
entre lençois de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.

E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo.
Que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas
postas até ao fundo do seu corpo.

Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar Salvador do Mundo
!



Alvaro Feijó

Saturday, December 11, 2010

Alfazema


*
Já a luz se apagou do chão do mundo ,
deixei de ser mortal a noite inteira .
ofensa grave a minha , que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.

De máscara perfeita , e corpo ausente ,
a todos enganei , e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.

Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede , vê na água
o reflexo da mão que a oferece ,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.


*
Antonio Franco Alexandre _ Duende _

Saturday, December 04, 2010

Violetas



A
Felicidade sentava - se todos os dias no peitoril da janela .

Tinha feições de menino inconsolável .
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém ,

gostando apenas de demorar as mãos
ou
de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E como menino que era ,
achava um grande mistério o seu próprio nome .




Jorge de Sena _ Obras Completas _