Olho por olho , e o mundo ficará cego .











Mahatma Gandhi









Saber


Vi _Ver .



Wednesday, September 22, 2010

Violetas


*
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de sabero que só então se sabe
e não se pode contar.
*
*
Natália Correia

Thursday, September 16, 2010

Alfazema .



Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos , onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas , fica.
O mistério está é na tua vida
!

E é um sonho louco este nosso mundo...

Mario Quintana _ Baú de Espantos _

Friday, September 10, 2010

Violetas



O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo ,
Nem sequer de tudo ou de nada ...
Cansaço assim mesmo , ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis ,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas ,
Essas e o que faz falta nelas eternamente .

Tudo isso faz um cansaço ,
Este cansaço ,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito ,
Há sem dúvida quem deseje o impossível ,
Há sem dúvida quem não queira nada .
Três tipos de idealistas , e eu nenhum deles ...

Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível ,
Porque eu quero tudo , ou um pouco mais , se puder ser ,
Ou até se não puder ser...

E o resultado
?

Para eles a vida vivida ou sonhada ,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo , íssimo ,
Cansaço...


Fernando Pessoa _ Alvaro de Campos _

Saturday, September 04, 2010

Alfazema .


*
Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume ...
o teu perfume ,
lenha
da melancolia.


Carlos Oliveira

Sunday, August 29, 2010

Violetas .



Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
/
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
/
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou .
Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
/
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
/
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
/
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?



Fernando Pessoa _ Alberto Caeiro _

Tuesday, August 24, 2010

Alfazema .



De repente ,
do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente ,
da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente,
não mais que de repente .
Fez-se de triste o que se fez amante .
E de sozinho o que se fez contente .
Fez-se do amigo próximo o distante .
Fez-se da vida uma aventura errante .
De repente,
não mais que de repente
!


Vinicius de Morais


Ver video aqui

Wednesday, August 18, 2010

Violetas .



Sonho , mas não parece.
nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
a minha vida.
Íntima , funda , como um sentimento
de que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado ,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos , depois ,
Frutos do sonho e dessa mesma vida ,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa .
Então , já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia ...
É ela prisioneira ,
Que , vendo a porta da prisão aberta ,
Como chispa que salta da fogueira ,
Numa agressiva fúria se liberta .





Miguel Torga

Tuesday, August 10, 2010

Alfazema .



*
Até o jada se parte ,
até o ouro se dobra ,
até a plumagem de quetzal se despedaça ...
Não se vive para sempre na terra !

Duramos apenas um instante !

*
Poema Azteca _ Rosa do Mundo , 2001 poemas para o futuro _

Saturday, July 31, 2010

Violetas


/
És um passaro , digo
És um pássaro

com penas
cintilantes
dos teus olhos

As tuas asas
de pétalas

tecidas com a luz
das penas
das asas que te crescem

Poisar um pouco
nos parapeitos
da memória

antes de recomeçar
o voo
de regresso a casa

Com as nossas asas
lúcidas ...
translúcidas e pálidas

Deixa-me voar
por cima do teu
colo

até ir poisar
na tua alma .

*
*
Maria Teresa Horta

Friday, July 23, 2010

Alfazema .


*
Não tem cor nem forma , que não sejam
as nossas próprias quando humanos somos.
Nela os homens crescem,
não apenas sendo crianças , mas homens acordando
em corações já seus , sabendo que outros homens há
em outros corações só por tão pouco
acordando também .
É uma maneira , um jeito ,um doce olhar /
uma conquista como o ter falado , o fogo ,
ou a ternura .
/
Tudo na vida é negação sem ela ,
é surdez ou cegueira , é sono é morte.
Inexorável , fluida , humilde , altiva ,
como as ervas teimosas.
/
Tudo na vida que , sem ela , é medo ,
é como aragem nos cabelos solta ,
se por ela se vive , pensa e morre .
Tema - a quem teme a luz do sol ,
o brilho dos astros pela treva ,
a mão amiga , a ressaca do mar ,
o ardor da chama,
o sulco de uma roda no caminho ,
o restolhar do vento nos pinhais ,
a luz distante , os passos no silêncio ,
a conversa ao crepúsculo , as flores
abrindo , os animais andando , e tudo
o que humano se torna ao nosso olhar ,
e tudo que é como essas pedras gastas
há séculos e séculos , por mãos humanas .
gratas , respeitosas , puras .


Perante a paz , tudo tem nome antigo ,
e o medo dos que a temem é o primeiro ,
o medo imenso de pensar e ser .



Jorge de Sena _ A arte de Jorge de Sena _

Saturday, July 17, 2010

Violetas .



Depois de amanhã, sim , só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível ...
mas hoje não...
Não, hoje nada ...
hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva ,
O sono da minha vida real , intercalado ,
O cansaço antecipado e infinito ,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico ...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me ,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte ...
Ele é que é decisivo .
Tenho já o plano traçado ...
mas não , hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo ...
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar ,
Tenho vontade de chorar muito de repente , de dentro...
Não, não queiram saber mais nada , é segredo , não digo.
Só depois de amanhã ...
Quando era criança o circo de Domingo divertia-se toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de Domingo de toda a semana da minha infância ...
Depois de amanhã serei outro ,
A minha vida triunfar-se-á ,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente , lido e prático
Serão convocadas por um edital ...
Mas por um edital de amanhã ...
Hoje quero dormir ,
redigirei amanhã...
Por hoje , qual é o espetáculo que me repetiria a infância
?

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã ,
Que depois de amanhã é o que está bem o espetáculo...
Antes , não ...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanha serei finalmente o que hoje não posso nunca
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras , ou depois de amanhã ...
Sim, talvez só depois de amanhã ...
O porvir ...
Sim , o porvir..


Fernando Pessoa

Tuesday, July 13, 2010

Alfazema .


*
Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas
!


Eugenio de Andrade

Saturday, July 10, 2010

Violetas .


*
Ó meu menino da rua
Só , com uma chave na mão ...
Quem é que brinca contigo ?
Quem é que pede perdão ?
*
*
Matilde Rosa Araujo

Friday, July 09, 2010

Violetas .





Espáduas brancas palpitantes ...
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea.
Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco.
Esponja embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro ,
presa na teia dos seus ardis.

E aos pés um coração de louça ,
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia

Friday, July 02, 2010

Alfazema .





Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão .
No prato, a sopa esfria , cheia de escamas
e debruçadas na mesa todos completam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra ,
uma letra somente
para acabar teu nome
!

Está sonhando ? Olhe que a sopa esfria !
Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo ...

_" Neste país é proibido sonhar." _

Carlos Drummond de Andrade

Tuesday, June 29, 2010

Violetas .




Há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza
!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
a mais sentimental
e baça
bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
e ninguém me deseje apaixonado ,
Ou que a antiga paixão
me mantenha calado
O coração
num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.


Miguel Torga _ Poesia Completa _

Thursday, June 24, 2010

Alfazema .



Não sou daqueles cujos ossos se guardam ,
nem sequer dos que vindouros lamentam
não hajam sido guardados a tempo de ser ossos .

Igualmente não sou dos que são estandartes
em lutas de sangue ou de palavras ,
por uns odiado quanto me amem outros .

Não sou sequer dos que são voz de encanto ,
ciciando na penumbra ao jovem solitário ,
a beleza vaga que em seus sonhos ouver .

Nem serei ao menos consolação dos tristes ,
dos humilhados , dos que fervem raivas
de uma vida inteira a pouco e pouco traída .

Não , não serei nada do que fica ou serve ,
e morrerei , quando morrer , comigo .

Só muito a medo , a horas mortas , me lerá ,
de todos e de si se disfarçando ,
curioso , aquele que aceita suspeitar
quanto mesmo a poesia ainda é disfarce da vida .


Jorge de Sena _ A arte de Jorge de Sena _

Saturday, June 19, 2010

Violetas .





Põe na mesa a toalha adamascada,
Traz as rosas mais frescas do jardim,
Deita o vinho no copo, corta o pão,
Com a faca de prata e de marfim.

Alguém se veio sentar à tua mesa,
Alguém a quem não vês, mas que pressentes.
Cruza as mãos no regaço, não perguntes ...
Nas perguntas que fazes é que mentes.

Prova depois o vinho, come o pão,
Rasga a palma da mão no caule agudo,
Leva as rosas à fronte, cobre os olhos,
Cumpriste o ritual e sabes tudo.


José Saramago _ Poemas possíveis _

Sunday, June 13, 2010

Alfazema .




Saíra Santo António do convento ,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar , num tom rezado e lento ,
Um cândido sermão sobre o pecado .
Andando , andando sempre , repetia
O divino sermão piedoso e brando ,
E nem notou que a tarde esmorecia ,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando , andando, viu-se num outeiro ,
Com árvores e casas espalhadas ,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas , das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe ,
E fraco por haver andado tanto ,
Sentou-se a descansar o bom do monge ,
Com a resignação de quem é santo…
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade ,
O Menino Jesus baixou do céu ,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto , uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante .
O luar, mais alto , iluminava mais.

De braço dado , para a fonte , vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha ,
Ele trazia … o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse ,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino , porém , ouviu e disse ...
_ Ó Frei António , o que foi aquilo
?


O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada ,
Mentiu numa voz doce como o mel ...
_ Não sei o que fosse . Eu cá não ouvi nada …

Uma risada límpida , sonora ,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
_ Ouviste , Frei António
? Ouviste agora ?

_ Ouvi , Senhor, ouvi . É um passarinho.

_ Tu não estás com a cabeça boa …
Um passarinho a cantar assim
!

E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado , mas por fim ,

Corado , como as vestes dos cardeais ,
Achou esta saída redentora ...
_ Se o Menino Jesus pergunta mais ,
Queixo-me à sua mãe , Nossa Senhora
!


Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento ,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou ...
Jesus ,
são horas …
e abalaram pró convento.
*
*
*
Augusto Gil

Wednesday, June 09, 2010

Violetas



Num jardim adornado de verdura,
Que esmaltavam por cima várias flores ,
Entrou um dia a deusa dos amores ,
Com a deusa da caça e da espessura.
Diana tomou logo ũa rosa pura ,
Vénus um roxo lírio , dos melhores .

Mas excediam muito às outras flores
As violas na graça e formosura.

Perguntam a cupido , que ali estava ,
Qual de aquelas três flores tomaria
Por mais suave e pura , e mais formosa.

Sorrindo-se o menino lhes tornava
Todas formosas são , mas eu queria
Viola antes que lírio , nem que rosa.



Luis Vaz de Camões

Saturday, June 05, 2010

Alfazema .



/
A montanha abraça a pedra ,
o rio abraça o peixe ,
a nuvem abraça o arco - iris
e a lua abraça todas as estrelas .

O abraço vem de muito longe no tempo .

A linguagem dos abraços não contém quaisquer palavras .
E
o que desejamos ...

que o nosso abraço seja
eterno e infinito .


*
*
Michal Snunit
excerto do livro " infantil " _ Vem e Abraça -me _

Thursday, June 03, 2010

Violetas .





Conta - me um conto ... ...
Como O queres
?

... um ...

que não tenhas contado a ninguèm !

Friday, May 28, 2010

Alfazema .


*
Se fosses luz serias a mais bela
de quantas há no mundo ... _ a luz do dia
!

Bendito seja o teu sorriso
que desata a inspiração
Da minha fantasia
!
Se fosses flor , serias o perfume
concentrado e divino que perturba
o sentir de quem nasce para amar
!

Se desejo o teu corpo é porque tenho
dentro de mim
a sede e a vibração de te beijar
!

Se fosses água , música da terra ,
serias água pura e sempre calma
!

Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero , meu amor, que sejas alma
!
*
*
António Botto _ Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro _

Saturday, May 22, 2010

Violetas .



Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu .

Os outros de mim
fingindo desconhecer a imagem ,
deixaram - me , a sós , perpelexo ,
com o meu súbito reflexo .

A idade é isto . . .

o peso da luz
com que nos vemos .
*
Mia Couto _ idades , cidades , divindades _

Thursday, May 13, 2010

Alfazema .



Feita toda de gesso
só os pés de ouro .
Como pô - la erecta
se te derrete nas mãos ,
os olhos de vidro prestes a rolarem ?
Deixa - a ficar de joelhos
e esquece - a .
Não quero ver - te levantar de novo
para segurá - la .


Hristós Valavanídis _ Rosa do Mundo 2001 poemas para o futuro _

Saturday, May 08, 2010

Violetas .



Aqui, na Terra, a fome continua .
A miséria , o luto , e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza ,
E também da pobreza , e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas ...
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta , é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome .
E são brinquedos as bombas de napalme.

José Saramago
_ Poemas possíveis _

Saturday, May 01, 2010

Alfazema .



A rectidão da água , o crescimento
das avenidas , ao anoitecer , sob a nua
vibração dos faróis .

o laço, mesmo, das portas só
entreabertas, onde a luz
silenciosa se demora;

são memórias, decerto, de um anterior
esquecimento, uma inocente
fadiga das coisas ,

como os corpos calados, abandonados
na véspera da guerra, o teu
jeito para

o desalinho branco das palavras,
altas as
asas de nuvens no clarão do céu

em vão rigor abrindo
o destinado enigma ... assim
desconhecer-te cada dia mais

ausente de recados e colheitas ,
em assustado bosque, em sombra
clareira ,

ao risco dos rios frívolos descendo
seixos polidos , desinscritos ,
imóveis movendo

a luz do dia ,
a margem recortada , aonde vivem
ausentes e seguros , os luminosos

animais do inverno .
Assim são na verdade os muros claros ,
assim respira o tempo , a terra intensa.


António Franco Alexandre

Saturday, April 24, 2010

Violetas .



Eu gosto das aldeias socegadas,
Com seu aspecto calmo e pastoril,
Erguidas nas collinas azuladas
Mais frescas que as manhãs finas d'Abril.

Levanta a alma ás cousas visionarias
A doce paz das suas eminencias,
E apraz-nos, pelas ruas solitarias,
Ver crescer as inuteis florescencias.

Pelas tardes das eiras , como eu gosto
Sentir a sua vida activa e sã
!
Vel-as na luz dolente do sol posto ,
E nas suaves tintas da manhã
!


As creanças do campo , ao amoroso
Calor do dia , folgam seminuas ,
E exala-se um sabor mysterioso
D'a agreste solidão das suas ruas
!


Alegram as paysagens as creanças,
Mais cheias de murmurios do que um ninho,
E elevam-nos ás cousas simples, mansas,
Ao fundo, as brancas velas d'um moinho.

Pelas noutes d'estio ouvem-se os rallos
Zunirem suas notas sibilantes,
E mistura-se o uivar dos cães distantes
Com o canto metallico dos gallos...

António Gomes Leal

Friday, April 16, 2010

Alfazema .



Sim ,
quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda ,
sim , ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início ,
sim , a algumas palavras que são nuvens brancas

e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico ,
sim , aos instrumentos simples da cozinha ,
sim , à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência ,
sim , à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da pesença,
sim , à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim , à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim , à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim , às folhas que oscilam e brilham ao subtil sopro de uma brisa ,
sim , ao espaço da casa ,

à sua música
entre o sono e a lucidez , que apazigua,
sim , aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa ,
sim , à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra ,
sim , a ti , tempestade que iluminas
um país de ausência ,
sim , a ti , quase monótona , quase nula
mas que és como o vento insubornável ,
sim , a ti , que és nada e atravessas tudo
e

és o sangue secreto do poema.


António Ramos Rosa

Thursday, April 08, 2010

Violetas .



Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor
!

E para as tuas chagas o unguento
Como que sarei a minha própria dor.

Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho ... o astro que dormita ,
O manto dos crepúsculos da tarde ,
O sol que é de oiro , a onda que palpita.

Dou-te , comigo , o mundo que Deus fez
!

Eu sou Aquela de quem tens saudade ,
A princesa do conto ... _ Era uma vez _ ...


Florbela Espanca

Monday, April 05, 2010

Alfazema .



Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar .
Balouço à beira dum poço ,
Bem difícil de montar...
E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar .

Se a corda se parte um dia
( E já vai estando esgarçada ) ,
Era uma vez a folia ...
Morre a criança afogada
!

Cá por mim não mudo a corda ,
Seria grande estopada .
Se o indez morre , deixá-lo .
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca ... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive ...

Mudar a corda era fácil .
Tal ideia nunca tive ...
Mário de Sá-Carneiro

Tuesday, March 30, 2010

Saturday, March 27, 2010

Violetas .



O essencial é saber ver ,
saber ver , sem estar a pensar ,
Saber ver quando se vê ,
E
nem pensar quando se vê,

Nem ver quando se pensa .



Alberto Caeiro .

Saturday, March 20, 2010

Alfazema .



Florescia
A pionia
De anos em anos , apenas .
Se a Primavera
Era
Fria ,
Mal se erguia
O caule das açucenas.
Rastejavam as verbenas ...
Mas uma flor sempre havia
Que era a que mais rescendia ...
Lembras - te , ao meio - dia ,
Postas , tuas mãos morenas ... ?

Às quais sagro esta elegia .


José Régio

Sunday, March 14, 2010

Violetas .


*
Nos dias tristes não se fala de aves
liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

nos dias tristes é inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento
e diz-se bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração ,
e não fala connosco.


Filipa Leal

Saturday, March 06, 2010

Alfazema .



Uma casa que fosse um areal deserto ,
que nem casa fosse.
Só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria , e aqueceu
as mãos.
E partiu porque tinha
um destino, coisa simples
e pouca, mas destino.
Crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abrilou , quem sabe
?

a floração dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.
Eugénio de Andrade .

Saturday, February 27, 2010

Violetas .



Desejo, como quem sente fome ou sede,
um caminho de areia margeado de boninas,
onde só cabem a bicicleta e seu dono.

Desejo, como uma funda saudade
de homem ficado órfão pequenino,
um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos
para um forte carinho em minha nuca.
Brotam os matinhos depois da chuva,
brotam os desejos do corpo.
Na alma, o querer de um mundo tão pequeno,
como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga.

Adélia Prado .

Saturday, February 20, 2010

Alfazema .


Partido ,
é uma parte ,
sê ,

inteiro !


Agostinho da Silva .

Saturday, February 13, 2010

Violetas .



Quando fui ferida,
por Deus, pelo Diabo, ou por mim mesma ,
_ ainda não sei _
percebi que não morrera , após três dias ,
ao rever pardais e moitinhas de trevo .

Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores ,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir ,
a festejar seu dono
_ ele , um bicho que não é gente -
tanto mais eu que posso perguntar _
Por que razão me bates?
Por isso , apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.


Adélia Prado .

Saturday, February 06, 2010

Alfazema .




Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
e vais à cave içar o teu malão.
Mas como destrinçar os nossos bens ?
Que livro? Que lembranças? Que papel ?
Os meus olhos, bem vês , és tu que os tens.
Não te devolvo - é minha! - a tua pele.
Achei ali um sonho muito velho,
não sei se o queres levar , já está no fio.
E o teu casaco roto , aquele vermelho
que eu costumo vestir quando está frio ?

E a planta que eu comprei e tu regavas ?
E o sol que dá no quarto de manhã ?
É meu o teu cachorro que eu tratava ?
É teu o meu canteiro de hortelã ?

A qual de nós pertence este destino ?
Este beijo era meu? Ou já não era ?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas ?


De quem é esta briga ? _ Não me lembro _ .


Rosa Lobato Faria

Saturday, January 30, 2010

Violetas .



/
Tempo ao tempo.
Mais depressa se apanha um assassino que um morto, porque, como dizia o outro, o morto voa a cavalo na alma e o assassino tropeça no medo.

José Cardoso Pires _ Balada da Praia dos Cães [ pequeno excerto ] _

Saturday, January 23, 2010

Alfazema .




Ser a moça mais linda do povoado ,
Pisar, sempre contente , o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho…
Com o luar matar a sede ao gado ,
Dar às pombas o sol num grão de milho…

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à terra da verdade …

Meu Deus , dai-me esta calma , esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.

Florbela Espanca
 

Saturday, January 16, 2010

Violetas .


A cidade caía
casa a casa
do céu sobre as colinas,
construída de cima para baixo
por chuvas e neblinas .
Encontrava
a outra cidade que subia
do chão com o luar
das janelas acesas ,
E no ar
o choque as destruía ,
silenciosamente,
de modo que se via
apenas a cidade inexistente.

Carlos de Oliveira

Saturday, January 09, 2010

Alfazema .


Eu , Marco Pólo,
farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento.
Abarca nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a algúem que se espera a cada instante

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora
assim, mente. E se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.



Alvaro Feijó

Friday, January 01, 2010

Alfazema e violetas .




Para todos.



Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

Natália Correia

Sunday, December 27, 2009

Violetas .



Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...


Florbela Espanca

Friday, December 18, 2009

Alfazema .




Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema ,
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter.
Intuito de amor , de amor não compreendido .
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.



Natália Correia

Friday, December 11, 2009

Violetas.

Mal vai quando em todo o lugar surgem certezas .

É
o noivado com a morte .


Agostinho da Silva

Saturday, December 05, 2009

Alfazema .


/Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.




Alexandre O´Neill

Saturday, November 28, 2009

Violetas .



A dor de perder alguém em vida,
é
pior do que a dor da morte,
porque
é o nunca mais de alguém
que se poderia ter,
já que está vivo e por perto.

Caio Fernando Abreu

Friday, November 20, 2009

Alfazema .



Este homem que pensou
com uma pedra na mão
tranformá-la num pão ,
tranformá-la num beijo .

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra .


António Ramos Rosa

Saturday, November 14, 2009

Violetas .



As palavras
cintilam na floresta do sono ,
e
o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo , como o vento ,
fala de amor
e
solidão ...
quem vos ferir
não fere em vão ,
palavras .


Carlos de Oliveira

Saturday, November 07, 2009

Alfazema .



Uma lufada de ar , e nome de elfo , me bastaram à vida pouca e fria .
Um vírus te desfaz , a lume lento ,

nas retortas de França . Ou talvez não .

Talvez , um outro dia , te percorra
como quem tem o mundo por fronteira ,
e o ar revolto nos acolha e beije ,
como beijei a boca que mentia .

António Franco Alexandre