Tuesday, May 31, 2011
Alfazema
Deito - me tarde
Espero por uma especie de silêncio
que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua .
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
é então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
a nossa mão poisada sobre a mesa .
É então que se vê passar o silêncio
Navegação antiquíssima e solene .
Sofia de Mello Breyner
Friday, May 27, 2011
Violetas
Se tanto me dói que as coisas passem ,
é porque cada instante em mim foi vivo
na luta por um bem definitivo ,
em que as coisas de amor se eternizassem .
Sofia de Mello Breyner
Friday, May 20, 2011
Alfazema
Caminhei pelas ruas do Destino procurando meu signo .
Bati na porta da Fortuna ,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama ,
falou que não podia atender .
Procurei na casa da Felicidade ,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha mudado
sem deixar novo endereço .
Procurei a porta da Fortaleza .
Ela me fez entrar ...
deu-me veste nova ,
perfumou-me os cabelos ,
fez me beber de seu vinho.
Acertei meu caminho.
Cora Coralina
Thursday, May 12, 2011
Violetas
Nunca compreendi
a caixa de costura.
Testemunha muda
de tardes e gerações ,
poder feminino sobre o útil .
No fundo dos carrinhos e dos dedais ,
devia haver
a esperança.
Pedro Mexia
Thursday, May 05, 2011
Alfazema
quero pegar , sentir , tocar , ser .
E tudo isso já faz parte de um todo ,
de um mistério .
Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja.
Isso lhe assusta?
Creio que sim.
Mas vale a pena
Mesmo que doa . . .
Dói só no começo.
Clarice Lispector
Friday, April 29, 2011
violetas
Recomeça
se puderes ,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E , nunca saciado ,
vai colhendo
ilusões sucessivas no pomar
E vendo
acordado,
o logro da aventura.
És homem , não te esqueças !
Só é tua a loucura
onde , com lucidez , te reconheças .
Miguel Torga
se puderes ,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E , nunca saciado ,
vai colhendo
ilusões sucessivas no pomar
E vendo
acordado,
o logro da aventura.
És homem , não te esqueças !
Só é tua a loucura
onde , com lucidez , te reconheças .
Miguel Torga
Monday, April 25, 2011
Alfazema
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo .
Onde emergimos da noite e do silêncio ,
E livres habitamos a substância do tempo .
O dia inicial inteiro e limpo .
Onde emergimos da noite e do silêncio ,
E livres habitamos a substância do tempo .
Sophia de Mello Breyner
Wednesday, April 20, 2011
Monday, April 18, 2011
violetas
Escrevo o que ainda conheço,
nomes de ruas , pássaros , arvores,
monólogos de quem ainda fala alto
É a minha voz ou a tua ?
Como se fosse uma metáfora sem fim.
Lá fora a chuva confunde-se com gestos ,
falamos do tempo , porque entre o silêncio e o nada.
Ouve , quando não fores capaz de falar ... toca - me
Maria de Sousa
Friday, April 15, 2011
Alfazema
Saturday, April 09, 2011
violetas
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola .
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade .
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência .
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro .
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo .
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco .
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura .
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante .
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino .
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte .
Natália Correia
Saturday, April 02, 2011
Alfazema
Deus quiz que a terra fosse toda uma ,
Que o mar unisse , já não separasse.
Sagrou-te , e foste desvendando a espuma ,
E a orla branca foi de ilha em continente ,
Clareou, correndo , até ao fim do mundo ,
E viu-se a terra inteira , de repente ,
Surgir redonda , do azul profundo.
Quem te sagrou creou-te portuguez .
Do mar e nós em ti nos deu sinal .
Cumpriu-se o Mar , e o Império se desfez .
Senhor , falta cumprir-se Portugal !
Fernando Pessoa _ Mensagem _
Saturday, March 26, 2011
Violetas

Ó nau gigante , ó nau soturna ,
galera trágica e nocturna ,
que levas , dize , no porão ? ...
O vento chora sobre o Mundo ,
chora de raiva o mar profundo ...
que levas , dize , no porão ? ...
/
Teu cavername exala miasmas ,
teus marinheiros são fantasmas ,
que levas , dize , no porão ? ...
Teu pendão negro vai a rastros ,
/
que levas , dize , no porão ? ...
_ Dentro do esquife , amortalhada ,
levo uma Pátria assassinada ,
no meu porão !
Guerra Junqueiro
Friday, March 04, 2011
Alfazema

*Tapas os caminhos que vão dar a casa ,
Cobres os vidros das janelas ,
Recolhes os cães para a cozinha ,
Soltas os lobos que saltam as cancelas ,
Pões guardas atentos espiando no jardim ,
Madrastas nas histórias inventadas ,Anjos do mal voando sem ter fim .
Destróis todas as pistas que nos salvam !
Depois secas a água e deitas fora o pão .
Tiras a esperança ,
Rejeitas a matriz .
E quando já só restam os sinais ,
Convocas devagar os vendavais !
Maria Teresa Horta
Friday, February 25, 2011
violetas
E no círculo da tua íris a melancolia
de um verde leve e de um lilás suave .
O teu sorriso cintilava como o oiro da penumbra
O vento da sombra despenteara-te os cabelos
e o negro ramalhete de uma madeixa esguia
pendia sobre a tua fronte pálida e indecisa .
Aproximei-me do teu rosto como uma vogal branca
e acariciei-o como se acaricia uma nascente de linho
ou uma pequena estrela limpa uma andorinha branca
e com os meus dedos soletrei-lhe todas as minúcias
mágicas .
Pronunciou então o meu nome num murmúrio de
seda
ou como um óleo da lua o meu sangue deslizou
sob uma chuva de pólen para o lábio de uma praia
entre a primavera e o outono da ternura
Minha pequena estrela que julgara perdida
erguia-se da água com os ombros esguios
e da fonte dos ventos mais suaves
como uma ânfora de linfa ou um ramo de oiro pálido
Antonio Ramos Rosa
sob uma chuva de pólen para o lábio de uma praia
entre a primavera e o outono da ternura
Minha pequena estrela que julgara perdida
erguia-se da água com os ombros esguios
e da fonte dos ventos mais suaves
como uma ânfora de linfa ou um ramo de oiro pálido
Saturday, February 19, 2011
Alfazema

*
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas ,
mas outros , gnomos e fadas
num halo resplandecente .
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes .
Cada um é seus caminhos
onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos ? São moinhos .
Vê gigantes ? São gigantes .
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas ,
mas outros , gnomos e fadas
num halo resplandecente .
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes .
Cada um é seus caminhos
onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos ? São moinhos .
Vê gigantes ? São gigantes .
*
*
António Gedeão _ Movimento Perpétuo _
Saturday, February 12, 2011
Violetas
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum.
É uma lucidez vazia , como explicar ?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual , no entanto , não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo ...
pois estou infinitamente maior que eu mesma ,
e não me alcanço .
Além do que ...
que faço dessa lucidez ?Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano .
Pois sei que
em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai , pois , minha flama , Deus ,
porque ela não me serve para viver os dias.
é um risco.
Apagai , pois , minha flama , Deus ,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis .
Eu consisto,
eu consisto ,
amém.
Clarice Lispector
Saturday, February 05, 2011
Alfazema

*
Não sinto saudade dos que amo ,
porque os tenho presentes todos os dias na minha pele,
no meu coração,
na minha mente ,
na minha alma .
Não tenho saudades das paisagens que conheci ,
porque as trago na retina .
Não tenho saudades dos objectos que deixei para trás ,
porque não preciso deles .
Sinto apenas saudades dos sonhos por realizar . . .
*
*
Maio Luz
im da net
Wednesday, January 26, 2011
violetas

Silêncio
acolhe - me
envolve -me em ti
deixa - me ficar em tua casa
Quero deixar de ser tua hóspede
para pertencer à familia .
Quantas vezes terei de servir à tua mesa ?
Imagino que as necessárias
Até que aprenda todas as lições da palavra muda .
Vamos os dois passear pelo som vivo da tua presença
Leva - me pela mão nesses labirintos de cristal
Deixa -me só naquele instante
em que os gritos de vitória ocupem o vácuo .
Aí anunciarás que estarei preparada para o início ,
O início da comunicação autónoma .
Maio Luz
Jose L . Munoz
Jose L . Munoz
Tuesday, January 25, 2011
alfazema

" Vem por aqui "
dizem-me alguns com os olhos doces
estendendo-me os braços , e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem ... vem por aqui !
estendendo-me os braços , e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem ... vem por aqui !
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há , nos olhos meus , ironias e cansaços)
E cruzo os braços ,
E nunca vou por ali ...
Não, não vou por aí !
Só vou por onde me levam meus próprios passos ...
/
(Há , nos olhos meus , ironias e cansaços)
E cruzo os braços ,
E nunca vou por ali ...
Não, não vou por aí !
Só vou por onde me levam meus próprios passos ...
/
Como , pois sereis vós
Que me dareis impulsos , ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos? ...
Corre, nas vossas veias , sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil !
Eu amo o Longe e a Miragem ,
Amo os abismos , as torrentes , os desertos...
/
Que me dareis impulsos , ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos? ...
Corre, nas vossas veias , sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil !
Eu amo o Longe e a Miragem ,
Amo os abismos , as torrentes , os desertos...
/
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções !
Ninguém me peça definições !
Ninguém me diga ... vem por aqui !
A minha vida é um vendaval que se soltou .
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou ,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí !
Ninguém me peça definições !
Ninguém me diga ... vem por aqui !
A minha vida é um vendaval que se soltou .
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou ,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí !
José Régio
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