Friday, July 08, 2011
Alfazema
Não
há , duas folhas iguais em toda a criação.
Ou nervura a menos , ou célula a mais , não há , de certeza , duas folhas iguais.
Limbo todas têm , que é próprio das folhas.
Pecíolo algumas , bainha nem todas.
Umas são fendidas , crenadas , lobadas , inteiras , partidas ,
singelas , dobradas.
Outras acerosas , redondas , agudas , macias , viscosas , fibrosas , carnudas.
Nas formas presentes , nos actos distantes , mesmo semelhantes são sempre diferentes.
Umas vão e caem no charco cinzento , e lançam apelos nas ondas que fazem.
Outras vão e jazem sem mais movimento .
Mas outras não jazem , nem caem , nem gritam ... apenas volitam nas dobras do vento.
É dessas que eu sou .!
António Gedeão
Friday, July 01, 2011
Violetas
Eu trago-te nas mãos o esquecimento ,
Das horas más que tens vivido , amor !
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dôr .
Os meus gestos são ondas de sorrento ,
Trago no nome as letras de uma flor .
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento ...
Dou-te o que tenho ... o astro que dormita ,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d'oiro, a onda que palpita,
Dou-te comigo o mundo que Deus fez !
Eu sou aquela de quens tens saudade ,
A princesa do conto ... " Era uma vez ... "
Florbela Espanca
Friday, June 24, 2011
Alfazema
Vós que lá do vosso Império
prometeis um mundo novo ,
calai-vos , que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério.
Que importa perder a vida
em luta contra a traição ,
se a razão mesmo vencida ,
não deixa de ser razão .
P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.
Há luta por mil doutrinas .
Se querem que o mundo ande ,
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande .
Sem que discurso eu pedisse,
ele falou, e eu escutei.
Gostei do que ele não disse ,
do que disse não gostei.
Nas quadras que a gente vê ,
quase sempre o mais bonito
está guardado pr'a quem lê
o que lá não está escrito !
António Aleixo _ Este livro que vos deixo _
Saturday, June 18, 2011
violetas
Venham leis e homens de balanças ,
mandamentos d'aquém e d'além mundo .
Venham ordens , decretos e vinganças ,
desça em nós o juízo até ao fundo .
Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora ,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos .
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos .
Ponham livros de ponto em toda a parte ,
relógios a marcar a hora exacta .
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo , o verso acta.
Mas quando nos julgarem bem seguros ,
cercados de bastões e fortalezas ,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas .
José Saramago _ Os Poemas Possíveis , 1966 _
Sunday, June 12, 2011
alfazema
Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta .pinta a seguir
qualquer coisa bonita ,
qualquer coisa simples ,
qualquer coisa bela ,
qualquer coisa útil ,
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta .
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada ,
sem te mexeres…
às vezes o pássaro não demora ,
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar ,
espera .
espera anos se for preciso .
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar ,
se chegar ,
mergulha no mais fundo silêncio .
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho .
com o pincel ,
depois ,
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas .
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro .
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar .
se o pássaro não cantar
é mau sinal .
é sinal que o quadro não presta .
mas se cantar é bom sinal ,
sinal de que podes assinar .
então arranca , com muito cuidado ,
uma das penas do pássaro ,
e escreve o teu nome num canto do quadro .
Jacques Prévert
Friday, June 10, 2011
violetas
Mudam-se os tempos , mudam-se as vontades ,
Muda-se o ser, muda-se a confiança .
Todo o Mundo é composto de mudança ,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades ,
Diferentes em tudo da esperança .
Do mal ficam as mágoas na lembrança ,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto ,
Que já coberto foi de neve fria ,
E em mim converte em choro o doce canto .
E , afora este mudar-se cada dia ,
Outra mudança faz de mor espanto ...
Que não se muda já como soía.
Luis Vaz de Camões
Tuesday, May 31, 2011
Alfazema
Deito - me tarde
Espero por uma especie de silêncio
que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua .
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
é então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
a nossa mão poisada sobre a mesa .
É então que se vê passar o silêncio
Navegação antiquíssima e solene .
Sofia de Mello Breyner
Friday, May 27, 2011
Violetas
Se tanto me dói que as coisas passem ,
é porque cada instante em mim foi vivo
na luta por um bem definitivo ,
em que as coisas de amor se eternizassem .
Sofia de Mello Breyner
Friday, May 20, 2011
Alfazema
Caminhei pelas ruas do Destino procurando meu signo .
Bati na porta da Fortuna ,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama ,
falou que não podia atender .
Procurei na casa da Felicidade ,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha mudado
sem deixar novo endereço .
Procurei a porta da Fortaleza .
Ela me fez entrar ...
deu-me veste nova ,
perfumou-me os cabelos ,
fez me beber de seu vinho.
Acertei meu caminho.
Cora Coralina
Thursday, May 12, 2011
Violetas
Nunca compreendi
a caixa de costura.
Testemunha muda
de tardes e gerações ,
poder feminino sobre o útil .
No fundo dos carrinhos e dos dedais ,
devia haver
a esperança.
Pedro Mexia
Thursday, May 05, 2011
Alfazema
quero pegar , sentir , tocar , ser .
E tudo isso já faz parte de um todo ,
de um mistério .
Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja.
Isso lhe assusta?
Creio que sim.
Mas vale a pena
Mesmo que doa . . .
Dói só no começo.
Clarice Lispector
Friday, April 29, 2011
violetas
Recomeça
se puderes ,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E , nunca saciado ,
vai colhendo
ilusões sucessivas no pomar
E vendo
acordado,
o logro da aventura.
És homem , não te esqueças !
Só é tua a loucura
onde , com lucidez , te reconheças .
Miguel Torga
se puderes ,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E , nunca saciado ,
vai colhendo
ilusões sucessivas no pomar
E vendo
acordado,
o logro da aventura.
És homem , não te esqueças !
Só é tua a loucura
onde , com lucidez , te reconheças .
Miguel Torga
Monday, April 25, 2011
Alfazema
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo .
Onde emergimos da noite e do silêncio ,
E livres habitamos a substância do tempo .
O dia inicial inteiro e limpo .
Onde emergimos da noite e do silêncio ,
E livres habitamos a substância do tempo .
Sophia de Mello Breyner
Wednesday, April 20, 2011
Monday, April 18, 2011
violetas
Escrevo o que ainda conheço,
nomes de ruas , pássaros , arvores,
monólogos de quem ainda fala alto
É a minha voz ou a tua ?
Como se fosse uma metáfora sem fim.
Lá fora a chuva confunde-se com gestos ,
falamos do tempo , porque entre o silêncio e o nada.
Ouve , quando não fores capaz de falar ... toca - me
Maria de Sousa
Friday, April 15, 2011
Alfazema
Saturday, April 09, 2011
violetas
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola .
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade .
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência .
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro .
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo .
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco .
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura .
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante .
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino .
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte .
Natália Correia
Saturday, April 02, 2011
Alfazema
Deus quiz que a terra fosse toda uma ,
Que o mar unisse , já não separasse.
Sagrou-te , e foste desvendando a espuma ,
E a orla branca foi de ilha em continente ,
Clareou, correndo , até ao fim do mundo ,
E viu-se a terra inteira , de repente ,
Surgir redonda , do azul profundo.
Quem te sagrou creou-te portuguez .
Do mar e nós em ti nos deu sinal .
Cumpriu-se o Mar , e o Império se desfez .
Senhor , falta cumprir-se Portugal !
Fernando Pessoa _ Mensagem _
Saturday, March 26, 2011
Violetas

Ó nau gigante , ó nau soturna ,
galera trágica e nocturna ,
que levas , dize , no porão ? ...
O vento chora sobre o Mundo ,
chora de raiva o mar profundo ...
que levas , dize , no porão ? ...
/
Teu cavername exala miasmas ,
teus marinheiros são fantasmas ,
que levas , dize , no porão ? ...
Teu pendão negro vai a rastros ,
/
que levas , dize , no porão ? ...
_ Dentro do esquife , amortalhada ,
levo uma Pátria assassinada ,
no meu porão !
Guerra Junqueiro
Friday, March 04, 2011
Alfazema

*Tapas os caminhos que vão dar a casa ,
Cobres os vidros das janelas ,
Recolhes os cães para a cozinha ,
Soltas os lobos que saltam as cancelas ,
Pões guardas atentos espiando no jardim ,
Madrastas nas histórias inventadas ,Anjos do mal voando sem ter fim .
Destróis todas as pistas que nos salvam !
Depois secas a água e deitas fora o pão .
Tiras a esperança ,
Rejeitas a matriz .
E quando já só restam os sinais ,
Convocas devagar os vendavais !
Maria Teresa Horta
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