Olho por olho , e o mundo ficará cego .











Mahatma Gandhi









Saber


Vi _Ver .



Sunday, June 12, 2011

alfazema














Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta .
pinta a seguir
qualquer coisa bonita ,
qualquer coisa simples ,
qualquer coisa bela ,
qualquer coisa útil ,
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta .
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada ,
sem te mexeres…
às vezes o pássaro não demora ,
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar ,
espera .
espera anos se for preciso .
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar ,
se chegar ,
mergulha no mais fundo silêncio .
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho .
com o pincel ,
depois ,
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas .
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro .
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar .
se o pássaro não cantar
é mau sinal .
é sinal que o quadro não presta .
mas se cantar é bom sinal ,
sinal de que podes assinar .
então arranca  , com muito cuidado ,
uma das penas do pássaro ,
e escreve o teu nome num canto do quadro .




Jacques  Prévert

Friday, June 10, 2011

violetas





Mudam-se os tempos , mudam-se as vontades ,
Muda-se o ser, muda-se a confiança . 
Todo o Mundo é composto de mudança ,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades ,
Diferentes em tudo da esperança .
Do mal ficam as mágoas na lembrança ,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto ,
Que já coberto foi de neve fria ,
E em mim converte em choro o doce canto .
E , afora este mudar-se cada dia ,
Outra mudança faz de mor espanto ...
Que não se muda como soía.


Luis  Vaz   de   Camões 

Tuesday, May 31, 2011

Alfazema


















Deito - me  tarde
Espero  por  uma especie de silêncio
que nunca  chega  cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua .
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
é então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
a nossa  mão  poisada sobre a mesa .

É então que se vê passar o silêncio

Navegação antiquíssima e solene .



Sofia de Mello Breyner

Friday, May 27, 2011

Violetas





Se tanto me dói que as coisas passem ,
é porque cada instante em mim foi vivo
na luta por um bem definitivo ,
em que as coisas de amor se eternizassem .




Sofia de Mello Breyner

Friday, May 20, 2011

Alfazema


Andei pelos caminhos da Vida ,
Caminhei pelas ruas do Destino procurando meu signo .
Bati na porta da Fortuna ,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama ,
falou que não podia atender .
Procurei na casa da Felicidade ,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha mudado
sem deixar novo endereço .
Procurei a porta da Fortaleza .
Ela me fez entrar ...
deu-me veste nova ,
perfumou-me os cabelos ,
fez me beber de seu vinho.

Acertei meu caminho.



Cora   Coralina

Thursday, May 12, 2011

Violetas







Nunca compreendi
a caixa de costura.
Testemunha muda
de tardes e gerações ,
poder  feminino sobre o útil  .
No  fundo dos carrinhos e dos dedais ,
devia haver
a esperança.


Pedro Mexia

Thursday, May 05, 2011

Alfazema


Sou uma filha da natureza ...
quero pegar , sentir , tocar , ser .
E tudo isso já faz parte de um todo ,
de um mistério .
Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja.
Isso lhe assusta?
Creio que sim.


Mas vale a pena
Mesmo que doa . . .
 Dói só no começo.




Clarice Lispector

Friday, April 29, 2011

violetas

Recomeça
se puderes ,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
não descanses.

De nenhum  fruto  queiras  só  metade.

E , nunca saciado ,
vai colhendo
ilusões sucessivas no pomar
E vendo
acordado,
o logro da aventura.


És homem , não te esqueças !
Só é tua a loucura
onde , com lucidez , te reconheças .




Miguel  Torga

Monday, April 25, 2011

Alfazema


25  de  Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo .
Onde emergimos da noite e do silêncio ,
E livres habitamos a substância do tempo .



Sophia de Mello Breyner

Wednesday, April 20, 2011

Monday, April 18, 2011

violetas



Escrevo o que ainda conheço,
nomes de ruas , pássaros , arvores,
monólogos de quem ainda fala alto
É a minha voz ou a tua ?
Como se fosse uma metáfora sem fim.

Lá fora a chuva confunde-se com gestos ,
falamos do tempo , porque entre o silêncio e o nada.
Ouve , quando não fores capaz de falar ...  toca - me


Maria de Sousa 

Friday, April 15, 2011

Alfazema




Em paisagens humanas , importa - me distinguir a sede dos olhos que ainda procuram .





Patrícia Baltazar

Cornelia Hermes

Saturday, April 09, 2011

violetas



Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola .
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade .
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência .
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro .
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo .
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco .
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura .
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante .
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino .
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte .



Natália Correia

Saturday, April 02, 2011

Alfazema

Deus quer , o homem sonha , a obra nasce .



Deus quiz que a terra fosse toda uma ,

Que o mar unisse , já não separasse.

Sagrou-te , e foste desvendando a espuma ,

E a orla branca foi de ilha em continente ,

Clareou, correndo , até ao fim do mundo ,


E viu-se a terra inteira , de repente ,

Surgir redonda , do azul profundo.

Quem te sagrou creou-te portuguez .

Do mar e nós em ti nos deu sinal .

Cumpriu-se o Mar , e o Império se desfez .

Senhor , falta cumprir-se Portugal !




Fernando Pessoa _ Mensagem _

Saturday, March 26, 2011

Violetas



Ó nau gigante , ó nau soturna ,
galera trágica e nocturna ,
que levas , dize , no porão ? ...

O vento chora sobre o Mundo ,
chora de raiva o mar profundo ...
que levas , dize , no porão ? ...
/
Teu cavername exala miasmas ,
teus marinheiros são fantasmas ,
que levas , dize , no porão ? ...

Teu pendão negro vai a rastros ,
/

que levas , dize , no porão ? ...

_ Dentro do esquife , amortalhada ,
levo uma Pátria assassinada ,
no meu porão !


Guerra Junqueiro

Friday, March 04, 2011

Alfazema


*Tapas os caminhos que vão dar a casa ,
Cobres os vidros das janelas ,
Recolhes os cães para a cozinha ,
Soltas os lobos que saltam as cancelas ,

Pões guardas atentos espiando no jardim ,
Madrastas nas histórias inventadas ,
Anjos do mal voando sem ter fim .

Destróis todas as pistas que nos salvam !

Depois secas a água e deitas fora o pão .
Tiras a esperança ,
Rejeitas a matriz .

E quando já só restam os sinais ,
Convocas devagar os vendavais
!



Maria Teresa
Horta

Friday, February 25, 2011

violetas





E no círculo da tua íris a melancolia
de um verde leve e de um lilás suave .
O teu sorriso cintilava como o oiro da penumbra
O vento da sombra despenteara-te os cabelos
e o negro ramalhete de uma madeixa esguia
pendia sobre a tua fronte pálida e indecisa .

Aproximei-me do teu rosto como uma vogal branca
e acariciei-o como se acaricia uma nascente de linho
ou uma pequena estrela limpa uma andorinha branca
e com os meus dedos soletrei-lhe todas as minúcias

mágicas .

Pronunciou então o meu nome num murmúrio de
seda
ou como um óleo da lua o meu sangue deslizou
sob uma chuva de pólen para o lábio de uma praia
entre a primavera e o outono da ternura

Minha pequena estrela que julgara perdida
erguia-se da água com os ombros esguios
e da fonte dos ventos mais suaves
como uma ânfora de linfa ou um ramo de oiro pálido
Antonio Ramos Rosa

Saturday, February 19, 2011

Alfazema


*
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas ,
mas outros , gnomos e fadas
num halo resplandecente .

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes .
Cada um é seus caminhos
onde Sancho moinhos
D. Quixote gigantes.

Vê moinhos
?
São moinhos .
Vê gigantes
?
São gigantes .
*
*
António Gedeão _ Movimento Perpétuo _

Saturday, February 12, 2011

Violetas




Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum.
É uma lucidez vazia , como explicar
?

Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual , no entanto , não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo ...
pois estou infinitamente maior que eu mesma ,
e não me alcanço .
Além do que ...
que faço dessa lucidez
?Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano .
Pois sei que
em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai , pois , minha flama , Deus ,
porque ela não me serve para viver os dias.

Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis .
Eu consisto,
eu consisto ,
amém.

Clarice Lispector

Saturday, February 05, 2011

Alfazema


*
Não sinto saudade dos que amo ,
porque os tenho presentes todos os dias na minha pele,
no meu coração,
na minha mente ,
na minha alma .

Não tenho saudades das paisagens que conheci ,
porque as trago na retina .

Não tenho saudades dos objectos que deixei para trás ,
porque não preciso deles .

Sinto apenas saudades dos sonhos por realizar . . .
*
*
Maio Luz
im da net

Wednesday, January 26, 2011

violetas



Silêncio
acolhe - me
envolve -me em ti
deixa - me ficar em tua casa
Quero deixar de ser tua hóspede
para pertencer à familia .

Quantas vezes terei de servir à tua mesa ?
Imagino que as necessárias
Até que aprenda todas as lições da palavra muda .

Vamos os dois passear pelo som vivo da tua presença
Leva - me pela mão nesses labirintos de cristal
Deixa -me só naquele instante
em que os gritos de vitória ocupem o vácuo .
Aí anunciarás que estarei preparada para o início ,
O início da comunicação autónoma .


Maio Luz
Jose L . Munoz

Tuesday, January 25, 2011

alfazema



" Vem por aqui "
dizem-me alguns com os olhos doces
estendendo-me os braços , e seguros
de que seria bom que eu
os ouvisse
Quando me dizem ... vem por aqui
!


Eu olho-os com olhos lassos,
(Há , nos olhos meus , ironias e cansaços)
E cruzo os braços ,
E nunca vou por ali ...

Não, não vou por aí
!

Só vou por onde me levam meus próprios passos ...
/


Como , pois sereis vós
Que me dareis impulsos , ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos
?
...
Corre, nas vossas veias , sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil
!

Eu amo o Longe e a Miragem ,
Amo os abismos , as torrentes , os desertos...
/


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções !
Ninguém me peça definições
!

Ninguém me diga ... vem por aqui
!

A minha vida é um vendaval que se soltou .
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou ,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí
!



José Régio

Saturday, January 22, 2011

violetas


*
País
por conhecer, por escrever, por ler ...

País purista a prosear bonito ,
a versejar tão chique e tão pudico ,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo ,
galhofeira , comigo.
/
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.
/
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.
/
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
/
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureira . . . _ Como vai a vida
?

País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão ,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.
E ainda há quem os ouça , quem os leia ,
lhes agradeça a fontanária ideia
!



Alexandre O´Neill

Friday, January 14, 2011

Alfazema



O dúbio mascarado , o mentiroso
Afinal , que passou na vida incógnito.
O rei-lua postiço , o falso atónito
Bem no fundo o covarde rigoroso

Em vez de pajem , bobo presunçoso.
Sua alma de neve , asco de um vómito.
Seu ânimo , cantado como indómito
Um lacaio invertido e pressuroso.

O sem nervos nem ansia , o papa-açorda
(seu coração talvez movido a corda...)
Apesar de seus berros ao Ideal.

O raimoso, o corrido, o desleal ,
o balofo arrotando império astralo mago sem condão, o esfinge o ... ...
*
*
Mario de Sá Carneiro

Saturday, January 08, 2011

Violetas



Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos
!


Sophia de Mello Breyner Andresen
foto _ Airam -Su

Sunday, January 02, 2011

Alfazema



Agora que o silêncio é um mar sem ondas ,
e que nele posso navegar sem rumo ,
não respondas
ás perguntas
que te fiz .
Deixa-me ser feliz
assim ,
já tão longe de ti , como de mim .

Perde-se a vida , a desejá-la tanto.

Só soubemos sofrer, enquanto
o nosso amor
durou.

Mas o tempo passou.
Há calmaria ...
Não perturbes a paz que me foi dada.

Ouvir de novo a tua voz seria ,
matar a sede com ... água salgada .
!



Miguel Torga

Saturday, January 01, 2011

Alfazema e violetas



Que
2011 traga o que de mais importante fôr
para a vida de cada um !

*
*

Wednesday, December 29, 2010

Violetas


*
Imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que , de sol em sol ,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

Dizes ... põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto ,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
Sim , cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

Diz-me que há ainda versos por escrever ,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.



Vasco Gato
Colin Fraser

Monday, December 27, 2010

Alfazema




As primeiras palavras que ouvi
na minha vida
foram
_ onde vais
?
_
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e minha mãe .

Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar .


Tonino Guerra_ Poemario A.& A _

Tuesday, December 21, 2010

Sunday, December 19, 2010

Violetas



Nasceu
Foi numa cama de folhelho
entre lençois de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.

E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo.
Que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas
postas até ao fundo do seu corpo.

Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar Salvador do Mundo
!



Alvaro Feijó

Saturday, December 11, 2010

Alfazema


*
Já a luz se apagou do chão do mundo ,
deixei de ser mortal a noite inteira .
ofensa grave a minha , que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.

De máscara perfeita , e corpo ausente ,
a todos enganei , e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.

Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede , vê na água
o reflexo da mão que a oferece ,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.


*
Antonio Franco Alexandre _ Duende _

Saturday, December 04, 2010

Violetas



A
Felicidade sentava - se todos os dias no peitoril da janela .

Tinha feições de menino inconsolável .
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém ,

gostando apenas de demorar as mãos
ou
de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E como menino que era ,
achava um grande mistério o seu próprio nome .




Jorge de Sena _ Obras Completas _

Saturday, November 27, 2010

Alfazema




Já desertou de mim o anjo preto ,e a minh´ alma cinzenta ,
ficou branca .
Que bom que era que desertasse também o anjo branco
p ´ra que minh´alma ficasse apenas
transparente ...



*
Cristovam Pavia

Tuesday, November 23, 2010

Violetas



Uma palavra antiga
mais nada .
Eh amiga ,
camarada !

Eh , onde quer que o sonho
leve o teu corpo tenso , teu sabor campesino ,
agridoce , de azedas e medronho ,
tua voz - aurora , sol , vitorioso sino.

Motivo de cantiga ,
anónima e amada
eh amiga ,
camarada !




Daniel Filipe _ Pátria lugar de exilio _

Saturday, November 20, 2010

Alfazema



Não te faças anunciar
Limita - te a chegar .

Pousa o casaco com os bolsos cheios
dessa tua vida mundana ,
na cadeira vazia
/
Descalça - te .
Não quero que os lugares onde estiveste
partilhem os passos que te trazem até mim
/
Hoje fico em silêncio ,
porque essas palavras já não me pertencem
E a ti também não.
Acabaram - se os porquês .

Amanhã não me acordes .
limita - te a sair pela ultima vez .


Ruth Ministro _ A minha Nuvem _

Saturday, November 13, 2010

Violetas



Obrigado
por todos os sonhos impossíveis ,
e pelas notas de amor que o violino não vibra
!
Obrigado por esta solidão que me esfarpa e me liberta !
Mas sobretudo obrigado pela lágrima que veio ,
inesperada , sorrir nos meus olhos
!


Cristovam Pavia

Wednesday, November 03, 2010

Alfazema


Povo que lavas no rio ,
Que vais às feiras e à tenda ,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão ,
Pode haver quem te defenda ,
Quem turve o teu ar sadio ,
Quem compre o teu chão sagrado

Mas a tua vida , não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia ...
Mas a tua vida , não
!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo , de mão em mão...
Água pura , fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida , não
!

Procissões de praia e monte ,
Areais , píncaros , passos
Atrás dos quais os meus vão
!
Que é dos cântaros da fonte ?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida , não
!

Aromas de urze e de lama!

Dormi com eles na cama ...
Tive a mesma condição .
Bruxas e lobas , estrelas
!

Tive o dom de conhecê-las ...
Mas a tua vida , não
!


Subi às frias montanhas ,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão .
Rasguei certo corpo ao meio ...
Vi certa curva em teu seio ...
Mas a tua vida , não
!

Só tu! Só tu és verdade!

Quando o remorso me invade
E me leva à confissão ...
Povo
!
Povo! eu te pertenço .
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida , não!



Pedro Homem de Mello_ Miserere _

Tuesday, November 02, 2010

Violetas .
















Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro ,
não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
se carácter custa caro ,
pago o preço.

Sidónio Muralha

Thursday, October 28, 2010

alfazema


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer
!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer
!


Mas , meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz
!

Amo-te tanto !
E nunca te beijei ...
E nesse beijo , Amor , que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz
!


Florbela Espanca

Saturday, October 23, 2010

Violetas .



Uma
sombra encostava a pata
ao vidro da janela .
Asim protegidos , adormeciamos .

Luisa Neto Jorge _ Poemario Assirio e Alvim _

Thursday, October 21, 2010

Alfazema .


*
No
regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
*
*Al Berto

Saturday, October 16, 2010

Violetas .





















*
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra ,
e

pescar luz caída
com paciência.


Pablo Neruda

Saturday, October 09, 2010

Alfazemas .


*
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores ,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente ,
uns vêem pedras pisadas ,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moínhos
D.Quixote vê gigantes.

Vê moínhos
?
São moínhos.
Vê gigantes
?
São gigantes


António Gedeão
.

Saturday, October 02, 2010

Violetas


É fácil trocar as palavras ,
Difícil é interpretar os silêncios
!

É fácil caminhar lado a lado ,
Difícil é saber como se encontrar
!

É fácil beijar o rosto ,
Difícil é chegar ao coração
!

É fácil apertar as mãos ,
Difícil é reter o calor
!

É fácil sentir o amor ,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa
?

Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa .
As dos outros são olhares ,
São gestos, são palavras ,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

*
Fernando Pessoa

Friday, September 24, 2010

Alfazema .






















Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro ,
a menor vogal
pode me desamparar !
E se eu abrir a boca ,
minha alma vai rachar.
O silêncio ,
aprendo ,
pode construir.
É um modo ...
denso ... tenso ,
de coexistir.
Calar , às vezes ,
é fina forma ,
de amar .


Affonso Romano de Sant'Anna

Wednesday, September 22, 2010

Violetas


*
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de sabero que só então se sabe
e não se pode contar.
*
*
Natália Correia

Thursday, September 16, 2010

Alfazema .



Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos , onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas , fica.
O mistério está é na tua vida
!

E é um sonho louco este nosso mundo...

Mario Quintana _ Baú de Espantos _

Friday, September 10, 2010

Violetas



O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo ,
Nem sequer de tudo ou de nada ...
Cansaço assim mesmo , ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis ,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas ,
Essas e o que faz falta nelas eternamente .

Tudo isso faz um cansaço ,
Este cansaço ,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito ,
Há sem dúvida quem deseje o impossível ,
Há sem dúvida quem não queira nada .
Três tipos de idealistas , e eu nenhum deles ...

Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível ,
Porque eu quero tudo , ou um pouco mais , se puder ser ,
Ou até se não puder ser...

E o resultado
?

Para eles a vida vivida ou sonhada ,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo , íssimo ,
Cansaço...


Fernando Pessoa _ Alvaro de Campos _

Saturday, September 04, 2010

Alfazema .


*
Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume ...
o teu perfume ,
lenha
da melancolia.


Carlos Oliveira

Sunday, August 29, 2010

Violetas .



Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
/
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
/
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou .
Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
/
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
/
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
/
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?



Fernando Pessoa _ Alberto Caeiro _

Tuesday, August 24, 2010

Alfazema .



De repente ,
do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente ,
da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente,
não mais que de repente .
Fez-se de triste o que se fez amante .
E de sozinho o que se fez contente .
Fez-se do amigo próximo o distante .
Fez-se da vida uma aventura errante .
De repente,
não mais que de repente
!


Vinicius de Morais


Ver video aqui

Wednesday, August 18, 2010

Violetas .



Sonho , mas não parece.
nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
a minha vida.
Íntima , funda , como um sentimento
de que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado ,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos , depois ,
Frutos do sonho e dessa mesma vida ,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa .
Então , já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia ...
É ela prisioneira ,
Que , vendo a porta da prisão aberta ,
Como chispa que salta da fogueira ,
Numa agressiva fúria se liberta .





Miguel Torga

Tuesday, August 10, 2010

Alfazema .



*
Até o jada se parte ,
até o ouro se dobra ,
até a plumagem de quetzal se despedaça ...
Não se vive para sempre na terra !

Duramos apenas um instante !

*
Poema Azteca _ Rosa do Mundo , 2001 poemas para o futuro _