Olho por olho , e o mundo ficará cego .











Mahatma Gandhi









Saber


Vi _Ver .



Tuesday, June 29, 2010

Violetas .




Há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza
!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
a mais sentimental
e baça
bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
e ninguém me deseje apaixonado ,
Ou que a antiga paixão
me mantenha calado
O coração
num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.


Miguel Torga _ Poesia Completa _

Thursday, June 24, 2010

Alfazema .



Não sou daqueles cujos ossos se guardam ,
nem sequer dos que vindouros lamentam
não hajam sido guardados a tempo de ser ossos .

Igualmente não sou dos que são estandartes
em lutas de sangue ou de palavras ,
por uns odiado quanto me amem outros .

Não sou sequer dos que são voz de encanto ,
ciciando na penumbra ao jovem solitário ,
a beleza vaga que em seus sonhos ouver .

Nem serei ao menos consolação dos tristes ,
dos humilhados , dos que fervem raivas
de uma vida inteira a pouco e pouco traída .

Não , não serei nada do que fica ou serve ,
e morrerei , quando morrer , comigo .

Só muito a medo , a horas mortas , me lerá ,
de todos e de si se disfarçando ,
curioso , aquele que aceita suspeitar
quanto mesmo a poesia ainda é disfarce da vida .


Jorge de Sena _ A arte de Jorge de Sena _

Saturday, June 19, 2010

Violetas .





Põe na mesa a toalha adamascada,
Traz as rosas mais frescas do jardim,
Deita o vinho no copo, corta o pão,
Com a faca de prata e de marfim.

Alguém se veio sentar à tua mesa,
Alguém a quem não vês, mas que pressentes.
Cruza as mãos no regaço, não perguntes ...
Nas perguntas que fazes é que mentes.

Prova depois o vinho, come o pão,
Rasga a palma da mão no caule agudo,
Leva as rosas à fronte, cobre os olhos,
Cumpriste o ritual e sabes tudo.


José Saramago _ Poemas possíveis _

Sunday, June 13, 2010

Alfazema .




Saíra Santo António do convento ,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar , num tom rezado e lento ,
Um cândido sermão sobre o pecado .
Andando , andando sempre , repetia
O divino sermão piedoso e brando ,
E nem notou que a tarde esmorecia ,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando , andando, viu-se num outeiro ,
Com árvores e casas espalhadas ,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas , das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe ,
E fraco por haver andado tanto ,
Sentou-se a descansar o bom do monge ,
Com a resignação de quem é santo…
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade ,
O Menino Jesus baixou do céu ,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto , uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante .
O luar, mais alto , iluminava mais.

De braço dado , para a fonte , vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha ,
Ele trazia … o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse ,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino , porém , ouviu e disse ...
_ Ó Frei António , o que foi aquilo
?


O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada ,
Mentiu numa voz doce como o mel ...
_ Não sei o que fosse . Eu cá não ouvi nada …

Uma risada límpida , sonora ,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
_ Ouviste , Frei António
? Ouviste agora ?

_ Ouvi , Senhor, ouvi . É um passarinho.

_ Tu não estás com a cabeça boa …
Um passarinho a cantar assim
!

E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado , mas por fim ,

Corado , como as vestes dos cardeais ,
Achou esta saída redentora ...
_ Se o Menino Jesus pergunta mais ,
Queixo-me à sua mãe , Nossa Senhora
!


Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento ,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou ...
Jesus ,
são horas …
e abalaram pró convento.
*
*
*
Augusto Gil

Wednesday, June 09, 2010

Violetas



Num jardim adornado de verdura,
Que esmaltavam por cima várias flores ,
Entrou um dia a deusa dos amores ,
Com a deusa da caça e da espessura.
Diana tomou logo ũa rosa pura ,
Vénus um roxo lírio , dos melhores .

Mas excediam muito às outras flores
As violas na graça e formosura.

Perguntam a cupido , que ali estava ,
Qual de aquelas três flores tomaria
Por mais suave e pura , e mais formosa.

Sorrindo-se o menino lhes tornava
Todas formosas são , mas eu queria
Viola antes que lírio , nem que rosa.



Luis Vaz de Camões

Saturday, June 05, 2010

Alfazema .



/
A montanha abraça a pedra ,
o rio abraça o peixe ,
a nuvem abraça o arco - iris
e a lua abraça todas as estrelas .

O abraço vem de muito longe no tempo .

A linguagem dos abraços não contém quaisquer palavras .
E
o que desejamos ...

que o nosso abraço seja
eterno e infinito .


*
*
Michal Snunit
excerto do livro " infantil " _ Vem e Abraça -me _

Thursday, June 03, 2010

Violetas .





Conta - me um conto ... ...
Como O queres
?

... um ...

que não tenhas contado a ninguèm !

Friday, May 28, 2010

Alfazema .


*
Se fosses luz serias a mais bela
de quantas há no mundo ... _ a luz do dia
!

Bendito seja o teu sorriso
que desata a inspiração
Da minha fantasia
!
Se fosses flor , serias o perfume
concentrado e divino que perturba
o sentir de quem nasce para amar
!

Se desejo o teu corpo é porque tenho
dentro de mim
a sede e a vibração de te beijar
!

Se fosses água , música da terra ,
serias água pura e sempre calma
!

Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero , meu amor, que sejas alma
!
*
*
António Botto _ Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro _

Saturday, May 22, 2010

Violetas .



Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu .

Os outros de mim
fingindo desconhecer a imagem ,
deixaram - me , a sós , perpelexo ,
com o meu súbito reflexo .

A idade é isto . . .

o peso da luz
com que nos vemos .
*
Mia Couto _ idades , cidades , divindades _

Thursday, May 13, 2010

Alfazema .



Feita toda de gesso
só os pés de ouro .
Como pô - la erecta
se te derrete nas mãos ,
os olhos de vidro prestes a rolarem ?
Deixa - a ficar de joelhos
e esquece - a .
Não quero ver - te levantar de novo
para segurá - la .


Hristós Valavanídis _ Rosa do Mundo 2001 poemas para o futuro _

Saturday, May 08, 2010

Violetas .



Aqui, na Terra, a fome continua .
A miséria , o luto , e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza ,
E também da pobreza , e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas ...
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta , é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome .
E são brinquedos as bombas de napalme.

José Saramago
_ Poemas possíveis _

Saturday, May 01, 2010

Alfazema .



A rectidão da água , o crescimento
das avenidas , ao anoitecer , sob a nua
vibração dos faróis .

o laço, mesmo, das portas só
entreabertas, onde a luz
silenciosa se demora;

são memórias, decerto, de um anterior
esquecimento, uma inocente
fadiga das coisas ,

como os corpos calados, abandonados
na véspera da guerra, o teu
jeito para

o desalinho branco das palavras,
altas as
asas de nuvens no clarão do céu

em vão rigor abrindo
o destinado enigma ... assim
desconhecer-te cada dia mais

ausente de recados e colheitas ,
em assustado bosque, em sombra
clareira ,

ao risco dos rios frívolos descendo
seixos polidos , desinscritos ,
imóveis movendo

a luz do dia ,
a margem recortada , aonde vivem
ausentes e seguros , os luminosos

animais do inverno .
Assim são na verdade os muros claros ,
assim respira o tempo , a terra intensa.


António Franco Alexandre

Saturday, April 24, 2010

Violetas .



Eu gosto das aldeias socegadas,
Com seu aspecto calmo e pastoril,
Erguidas nas collinas azuladas
Mais frescas que as manhãs finas d'Abril.

Levanta a alma ás cousas visionarias
A doce paz das suas eminencias,
E apraz-nos, pelas ruas solitarias,
Ver crescer as inuteis florescencias.

Pelas tardes das eiras , como eu gosto
Sentir a sua vida activa e sã
!
Vel-as na luz dolente do sol posto ,
E nas suaves tintas da manhã
!


As creanças do campo , ao amoroso
Calor do dia , folgam seminuas ,
E exala-se um sabor mysterioso
D'a agreste solidão das suas ruas
!


Alegram as paysagens as creanças,
Mais cheias de murmurios do que um ninho,
E elevam-nos ás cousas simples, mansas,
Ao fundo, as brancas velas d'um moinho.

Pelas noutes d'estio ouvem-se os rallos
Zunirem suas notas sibilantes,
E mistura-se o uivar dos cães distantes
Com o canto metallico dos gallos...

António Gomes Leal

Friday, April 16, 2010

Alfazema .



Sim ,
quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda ,
sim , ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início ,
sim , a algumas palavras que são nuvens brancas

e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico ,
sim , aos instrumentos simples da cozinha ,
sim , à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência ,
sim , à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da pesença,
sim , à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim , à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim , à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim , às folhas que oscilam e brilham ao subtil sopro de uma brisa ,
sim , ao espaço da casa ,

à sua música
entre o sono e a lucidez , que apazigua,
sim , aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa ,
sim , à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra ,
sim , a ti , tempestade que iluminas
um país de ausência ,
sim , a ti , quase monótona , quase nula
mas que és como o vento insubornável ,
sim , a ti , que és nada e atravessas tudo
e

és o sangue secreto do poema.


António Ramos Rosa

Thursday, April 08, 2010

Violetas .



Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor
!

E para as tuas chagas o unguento
Como que sarei a minha própria dor.

Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho ... o astro que dormita ,
O manto dos crepúsculos da tarde ,
O sol que é de oiro , a onda que palpita.

Dou-te , comigo , o mundo que Deus fez
!

Eu sou Aquela de quem tens saudade ,
A princesa do conto ... _ Era uma vez _ ...


Florbela Espanca

Monday, April 05, 2010

Alfazema .



Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar .
Balouço à beira dum poço ,
Bem difícil de montar...
E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar .

Se a corda se parte um dia
( E já vai estando esgarçada ) ,
Era uma vez a folia ...
Morre a criança afogada
!

Cá por mim não mudo a corda ,
Seria grande estopada .
Se o indez morre , deixá-lo .
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca ... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive ...

Mudar a corda era fácil .
Tal ideia nunca tive ...
Mário de Sá-Carneiro

Tuesday, March 30, 2010

Saturday, March 27, 2010

Violetas .



O essencial é saber ver ,
saber ver , sem estar a pensar ,
Saber ver quando se vê ,
E
nem pensar quando se vê,

Nem ver quando se pensa .



Alberto Caeiro .

Saturday, March 20, 2010

Alfazema .



Florescia
A pionia
De anos em anos , apenas .
Se a Primavera
Era
Fria ,
Mal se erguia
O caule das açucenas.
Rastejavam as verbenas ...
Mas uma flor sempre havia
Que era a que mais rescendia ...
Lembras - te , ao meio - dia ,
Postas , tuas mãos morenas ... ?

Às quais sagro esta elegia .


José Régio

Sunday, March 14, 2010

Violetas .


*
Nos dias tristes não se fala de aves
liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

nos dias tristes é inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento
e diz-se bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração ,
e não fala connosco.


Filipa Leal