Olho por olho , e o mundo ficará cego .











Mahatma Gandhi








Saber


Vi _Ver .



Friday, February 25, 2011

violetas





E no círculo da tua íris a melancolia
de um verde leve e de um lilás suave .
O teu sorriso cintilava como o oiro da penumbra
O vento da sombra despenteara-te os cabelos
e o negro ramalhete de uma madeixa esguia
pendia sobre a tua fronte pálida e indecisa .

Aproximei-me do teu rosto como uma vogal branca
e acariciei-o como se acaricia uma nascente de linho
ou uma pequena estrela limpa uma andorinha branca
e com os meus dedos soletrei-lhe todas as minúcias

mágicas .

Pronunciou então o meu nome num murmúrio de
seda
ou como um óleo da lua o meu sangue deslizou
sob uma chuva de pólen para o lábio de uma praia
entre a primavera e o outono da ternura

Minha pequena estrela que julgara perdida
erguia-se da água com os ombros esguios
e da fonte dos ventos mais suaves
como uma ânfora de linfa ou um ramo de oiro pálido
Antonio Ramos Rosa

Saturday, February 19, 2011

Alfazema


*
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas ,
mas outros , gnomos e fadas
num halo resplandecente .

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes .
Cada um é seus caminhos
onde Sancho moinhos
D. Quixote gigantes.

Vê moinhos
?
São moinhos .
Vê gigantes
?
São gigantes .
*
*
António Gedeão _ Movimento Perpétuo _

Saturday, February 12, 2011

Violetas




Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum.
É uma lucidez vazia , como explicar
?

Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual , no entanto , não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo ...
pois estou infinitamente maior que eu mesma ,
e não me alcanço .
Além do que ...
que faço dessa lucidez
?Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano .
Pois sei que
em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai , pois , minha flama , Deus ,
porque ela não me serve para viver os dias.

Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis .
Eu consisto,
eu consisto ,
amém.

Clarice Lispector

Saturday, February 05, 2011

Alfazema


*
Não sinto saudade dos que amo ,
porque os tenho presentes todos os dias na minha pele,
no meu coração,
na minha mente ,
na minha alma .

Não tenho saudades das paisagens que conheci ,
porque as trago na retina .

Não tenho saudades dos objectos que deixei para trás ,
porque não preciso deles .

Sinto apenas saudades dos sonhos por realizar . . .
*
*
Maio Luz
im da net