Olho por olho , e o mundo ficará cego .











Mahatma Gandhi








Saber


Vi _Ver .



Saturday, July 31, 2010

Violetas


/
És um passaro , digo
És um pássaro

com penas
cintilantes
dos teus olhos

As tuas asas
de pétalas

tecidas com a luz
das penas
das asas que te crescem

Poisar um pouco
nos parapeitos
da memória

antes de recomeçar
o voo
de regresso a casa

Com as nossas asas
lúcidas ...
translúcidas e pálidas

Deixa-me voar
por cima do teu
colo

até ir poisar
na tua alma .

*
*
Maria Teresa Horta

Friday, July 23, 2010

Alfazema .


*
Não tem cor nem forma , que não sejam
as nossas próprias quando humanos somos.
Nela os homens crescem,
não apenas sendo crianças , mas homens acordando
em corações já seus , sabendo que outros homens há
em outros corações só por tão pouco
acordando também .
É uma maneira , um jeito ,um doce olhar /
uma conquista como o ter falado , o fogo ,
ou a ternura .
/
Tudo na vida é negação sem ela ,
é surdez ou cegueira , é sono é morte.
Inexorável , fluida , humilde , altiva ,
como as ervas teimosas.
/
Tudo na vida que , sem ela , é medo ,
é como aragem nos cabelos solta ,
se por ela se vive , pensa e morre .
Tema - a quem teme a luz do sol ,
o brilho dos astros pela treva ,
a mão amiga , a ressaca do mar ,
o ardor da chama,
o sulco de uma roda no caminho ,
o restolhar do vento nos pinhais ,
a luz distante , os passos no silêncio ,
a conversa ao crepúsculo , as flores
abrindo , os animais andando , e tudo
o que humano se torna ao nosso olhar ,
e tudo que é como essas pedras gastas
há séculos e séculos , por mãos humanas .
gratas , respeitosas , puras .


Perante a paz , tudo tem nome antigo ,
e o medo dos que a temem é o primeiro ,
o medo imenso de pensar e ser .



Jorge de Sena _ A arte de Jorge de Sena _

Saturday, July 17, 2010

Violetas .



Depois de amanhã, sim , só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível ...
mas hoje não...
Não, hoje nada ...
hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva ,
O sono da minha vida real , intercalado ,
O cansaço antecipado e infinito ,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico ...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me ,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte ...
Ele é que é decisivo .
Tenho já o plano traçado ...
mas não , hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo ...
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar ,
Tenho vontade de chorar muito de repente , de dentro...
Não, não queiram saber mais nada , é segredo , não digo.
Só depois de amanhã ...
Quando era criança o circo de Domingo divertia-se toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de Domingo de toda a semana da minha infância ...
Depois de amanhã serei outro ,
A minha vida triunfar-se-á ,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente , lido e prático
Serão convocadas por um edital ...
Mas por um edital de amanhã ...
Hoje quero dormir ,
redigirei amanhã...
Por hoje , qual é o espetáculo que me repetiria a infância
?

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã ,
Que depois de amanhã é o que está bem o espetáculo...
Antes , não ...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanha serei finalmente o que hoje não posso nunca
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras , ou depois de amanhã ...
Sim, talvez só depois de amanhã ...
O porvir ...
Sim , o porvir..


Fernando Pessoa

Tuesday, July 13, 2010

Alfazema .


*
Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas
!


Eugenio de Andrade

Saturday, July 10, 2010

Violetas .


*
Ó meu menino da rua
Só , com uma chave na mão ...
Quem é que brinca contigo ?
Quem é que pede perdão ?
*
*
Matilde Rosa Araujo

Friday, July 09, 2010

Violetas .





Espáduas brancas palpitantes ...
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea.
Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco.
Esponja embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro ,
presa na teia dos seus ardis.

E aos pés um coração de louça ,
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia

Friday, July 02, 2010

Alfazema .





Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão .
No prato, a sopa esfria , cheia de escamas
e debruçadas na mesa todos completam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra ,
uma letra somente
para acabar teu nome
!

Está sonhando ? Olhe que a sopa esfria !
Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo ...

_" Neste país é proibido sonhar." _

Carlos Drummond de Andrade