Olho por olho , e o mundo ficará cego .











Mahatma Gandhi








Saber


Vi _Ver .



Saturday, April 24, 2010

Violetas .



Eu gosto das aldeias socegadas,
Com seu aspecto calmo e pastoril,
Erguidas nas collinas azuladas
Mais frescas que as manhãs finas d'Abril.

Levanta a alma ás cousas visionarias
A doce paz das suas eminencias,
E apraz-nos, pelas ruas solitarias,
Ver crescer as inuteis florescencias.

Pelas tardes das eiras , como eu gosto
Sentir a sua vida activa e sã
!
Vel-as na luz dolente do sol posto ,
E nas suaves tintas da manhã
!


As creanças do campo , ao amoroso
Calor do dia , folgam seminuas ,
E exala-se um sabor mysterioso
D'a agreste solidão das suas ruas
!


Alegram as paysagens as creanças,
Mais cheias de murmurios do que um ninho,
E elevam-nos ás cousas simples, mansas,
Ao fundo, as brancas velas d'um moinho.

Pelas noutes d'estio ouvem-se os rallos
Zunirem suas notas sibilantes,
E mistura-se o uivar dos cães distantes
Com o canto metallico dos gallos...

António Gomes Leal

Friday, April 16, 2010

Alfazema .



Sim ,
quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda ,
sim , ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início ,
sim , a algumas palavras que são nuvens brancas

e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico ,
sim , aos instrumentos simples da cozinha ,
sim , à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência ,
sim , à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da pesença,
sim , à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim , à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim , à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim , às folhas que oscilam e brilham ao subtil sopro de uma brisa ,
sim , ao espaço da casa ,

à sua música
entre o sono e a lucidez , que apazigua,
sim , aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa ,
sim , à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra ,
sim , a ti , tempestade que iluminas
um país de ausência ,
sim , a ti , quase monótona , quase nula
mas que és como o vento insubornável ,
sim , a ti , que és nada e atravessas tudo
e

és o sangue secreto do poema.


António Ramos Rosa

Thursday, April 08, 2010

Violetas .



Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor
!

E para as tuas chagas o unguento
Como que sarei a minha própria dor.

Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho ... o astro que dormita ,
O manto dos crepúsculos da tarde ,
O sol que é de oiro , a onda que palpita.

Dou-te , comigo , o mundo que Deus fez
!

Eu sou Aquela de quem tens saudade ,
A princesa do conto ... _ Era uma vez _ ...


Florbela Espanca

Monday, April 05, 2010

Alfazema .



Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar .
Balouço à beira dum poço ,
Bem difícil de montar...
E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar .

Se a corda se parte um dia
( E já vai estando esgarçada ) ,
Era uma vez a folia ...
Morre a criança afogada
!

Cá por mim não mudo a corda ,
Seria grande estopada .
Se o indez morre , deixá-lo .
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca ... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive ...

Mudar a corda era fácil .
Tal ideia nunca tive ...
Mário de Sá-Carneiro